Título: XINGAMENTOS E AMEAÇAS DE SURRA FAZEM PARTE DA ROTINA PARLAMENTAR
Autor:
Fonte: O Globo, 13/11/2005, O País, p. 4

Atual legislatura é tida como a pior das últimas décadas

BRASÍLIA. A começar pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já recorreu a um vocabulário chulo quando, por exemplo, mandou o brasileiro mexer o traseiro contra os juros altos, a falta de compostura e o destempero verbal que tomaram conta da classe política nos últimos tempos chamam a atenção da sociedade como um todo e, agora, de psicanalistas. Nos discursos nada polidos em plenário e nas CPIs, onde as discussões pegam fogo, o que se ouve e vê com frequência são atitudes que nada condizem com o decoro parlamentar: xingamentos, ameaças de partir a cara, dedo em riste, safanões, barrigadas. Por último, a prometida surra de um senador e um deputado no presidente da República.

O vice-presidente da Câmara, José Tomaz Nonô (PFL-AL), diz que é o ócio que alimenta a brigalhada e a falta de compostura.

¿ E isso vale também para o presidente Lula, que não se dedica com muito afinco ao trabalho de governar. Há uma natural exacerbação dos ânimos, já que existem pelo menos cerca de 350 deputados sem o que fazer. O resto se dedica às investigações dos escândalos. A falta do que fazer e o que dizer ano que vem está gerando essa irritação coletiva. O remédio? Terapia ocupacional, ou seja, votar, trabalhar... ¿ diz Nonô.

Uma das mais brigonas, a senadora Heloísa Helena já mediu bigodes com vários colegas, principalmente com os petistas Maurício Rands (PT-PE) e Eduardo Valverde (PT-RO), outro esquentado. Mas não se considera mal-educada nem destemperada por isso. Admite que vira uma onça quando lhe atingem a honra ou se mexem com sua família.

¿ Não sou destemperada. Os chamados temperos da civilidade, que são a prudência e a moderação, em uma Casa legislativa que mantém a promiscuidade com o Planalto, se constitui em um ritual cínico e mentiroso. Eu fui bem educada pela minha mãe, pela minha família pobre, mas não fui domesticada para me acovardar diante de qualquer canalha daqui ou de fora do Congresso ¿ diz a senadora.

Mas o acirramento entre os membros do Congresso não é um privilégio desta legislatura, que já é considerada pelos próprios parlamentares como a pior das últimas décadas. A história do Parlamento brasileiro registra inclusive disparo de tiros no plenário do Senado.

¿Vivemos um momento de autofagia¿, diz José Múcio

Apesar de muito estressado e desencantado, o líder do PTB, José Múcio Monteiro (PE), não está entre os parlamentares que externam de forma agressiva suas angústias. Ninguém conta e interpreta piadas e casos nordestinos no Congresso como ele. Segundo ele próprio define, nesse caso o que ajuda é seu bom humor e a facilidade que tem de dissipar a raiva.

¿ Vivemos um momento de autofagia, com as pessoas sobrevivendo do mal que podem fazer a alguém. É um ambiente de polícia, a gente é suspeito a todo momento. Isso é muito ruim e deixa todo mundo com os nervos à flor da pele ¿ queixa-se José Múcio.

Logo após a ameaça de surrar o presidente feita pelo senador Arthur Virgílio, líder do PSDB no Senado, e pelo deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA), choveram cartas nos jornais de todo país de leitores indignados com tal linguajar.