Título: PAPA DÁ PERFIL MAIS CONSERVADOR À IGREJA NO BRASIL
Autor: Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 13/11/2005, O País, p. 17

Arcebispo de Aparecida do Norte, que vai sediar conferência latino-americana, está prestigiado com Bento XVI

BRASÍLIA. Depois de seis meses do início do pontificado do Papa Bento XVI, a geografia do poder na Igreja Católica brasileira começa a ter uma nova configuração. A mudança fica cada vez mais evidente diante do perfil mais conservador dos bispos que estão subindo na cotação do Vaticano. Nas últimas três semanas, O GLOBO conversou com bispos brasileiros que têm trânsito na Cúria Romana para traçar esse novo mapa do clero no Brasil.

Apesar de ainda ser recente a eleição do cardeal alemão Joseph Ratzinger, o novo Papa já começa a deixar cada vez mais explícita a sua linha de atuação na Igreja e, por conseqüência, sua preferência entre os bispos do Brasil, o maior país católico do mundo.

Escolha de Aparecida pegou a Igreja de surpresa

O principal símbolo dessa nova interlocução ficou evidente no dia 15 de outubro, quando o Papa anunciou que a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe será celebrada no Santuário de Aparecida do Norte, em São Paulo, em 2007. A escolha pegou de surpresa a cúpula da Igreja no continente e mostrou o prestígio do arcebispo de Aparecida, dom Raymundo Damasceno.

Nem o Santuário de Aparecida nem o Brasil estavam cotados para sediar o encontro. Isso porque, em 1955, o Rio de Janeiro já havia sediado a reunião. Existia um forte lobby para que desta vez o encontro fosse em Buenos Aires, na Argentina.

Na avaliação de bispos brasileiros, o veto de Bento XVI à capital argentina estaria ligado ao fato de ele ter sido seriamente desafiado pelo cardeal-arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, durante o conclave para a escolha do Papa. Segundo o diário secreto de um cardeal, revelado recentemente, no terceiro escrutínio o alemão atingiu 72 votos, e Bergoglio, 40.

Bento já havia sinalizado que viria ao Brasil em junho. Convidado por Damasceno, num encontro no Vaticano, o Papa avisou que em breve iria visitar o maior santuário mariano do mundo. Mas o que motivou o Papa foi uma conversa que teve durante o Sínodo, em Roma, em outubro. Na ocasião, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Cláudio Hummes, alertou para um forte declínio da população católica no Brasil, no ritmo de 1% ao ano. Depois do alerta, o Papa foi direto: disse que é preciso evangelizar o Brasil e ¿sair de porta em porta¿ para reconquistar a fé popular.

¿ Num país como o nosso, de maioria católica, corre-se o risco de acomodação. Temos que intensificar a ação evangelizadora, diante do crescimento de igrejas neopentecostais. A conclusão do encontro deve ser uma grande missão em âmbito continental ¿ diz dom Damasceno.

A percepção no Vaticano é que há um vácuo de novos talentos no Brasil. A carência é tamanha que o arcebispo emérito do Rio de Janeiro, cardeal dom Eugenio Sales, que atuava de forma mais discreta, voltou a ser solicitado com freqüência a partir da eleição de Bento XVI. Amigo do Papa, dom Eugenio passou a ser a principal referência do Vaticano no país.

Não é por acaso. A avaliação de alguns bispos brasileiros é de que o cardeal-arcebispo do Rio, dom Eusébio Scheid, não conseguiu fazer a transição perfeita na sucessão de dom Eugenio. O Vaticano não aprova até hoje o bate-boca de dom Eusébio com o presidente Lula. Durante o conclave, o cardeal chegou a chamar Lula de caótico.

Não é esse tipo de polêmica que Bento XVI deseja. A ordem é agregar o máximo possível. Nesse perfil, dá um bom exemplo o novo arcebispo de Belém, dom Orani João Tempesta, que está fazendo uma transição perfeita em substituição a dom Vicente Zico, que comandou a diocese durante duas décadas. Não é só no Rio que a expectativa de uma sucessão tranqüila foi frustrada. Em Brasília, a atuação do arcebispo dom João Braz de Aviz ainda é considerada tímida, comparada com a força do antecessor, cardeal dom José Freire Falcão, que recentemente completou 80 anos.

Arcebispo de Belo Horizonte não conseguiu impor marca

O mesmo acontece em Belo Horizonte, onde o arcebispo dom Walmor Oliveira de Azevedo não conseguiu impor sua marca, em relação ao carisma discreto de cardeal dom Serafim Fernandes de Araújo. Mas não é só influência na sociedade que estaria preocupando a cúpula do Vaticano. O desejo da Santa Sé é de deixar o comando da Igreja com bispos mais conciliadores.

O Vaticano não aprovou a posição inicial da CNBB em relação à greve de fome do bispo de Barra (BA), dom Luís Flávio Cappio. A Conferência chegou a mandar uma carta classificando a atitude de Cappio de ¿grande generosidade¿. A atuação do secretário-geral da CNBB, dom Odilo Scherer, bispo-auxiliar de São Paulo, foi considerada por colegas dúbia e desastrosa, o que forçou uma intervenção do Vaticano. A Santa Sé também não aprovou a divisão do episcopado brasileiro em relação a transposição do Rio São Francisco e acha que a CNBB foi precipitada ao tomar partido no primeiro instante.