Título: Para driblar a crise, cooperativas de reciclagem tentam valorizar produtos
Autor: Luciana Rodrigues
Fonte: O Globo, 13/11/2005, Economia, p. 32
Graças ao uso de máquinas, alguns cooperados mantêm o nível de renda
A queda nos preços da sucata não só corroeu a renda de milhares de catadores de lixo, como também levou a calotes entre fornecedores e intermediários, a problemas financeiros em cooperativas e a atrasos no pagamento de trabalhadores. Para driblar a crise, a saída, em alguns casos, foi qualificar o produto final, ou, como manda o receituário dos economistas, aumentar o valor agregado.
Na cooperativa Sampaio, que recolhe sucata sobretudo da Zona Norte do Rio, as portas só não foram fechadas graças ao empréstimo de uma máquina de triturar plásticos. Antes, a cooperativa comprava de catadores garrafas de plástico (embalagens de amaciante de roupa e xampu, por exemplo) a R$0,30 o quilo. Fazia a seleção por cores e montava os fardos para revender a R$0,70 o quilo.
Agora, com a nova máquina, as garrafas são trituradas e seus pedaços, lavados, secados e embalados em sacos de 25 quilos. O preço de venda subiu para R$1 por quilo ¿ um ganho de 43%. A máquina foi emprestada sem encargos pela fábrica Luvitubo, que exigiu em troca exclusividade na mercadoria.
¿ Uma máquina dessas custa R$50 mil. Cada passo que damos no material, é mais um dinheiro que entra. Plástico agora só se for desse tipo, porque quem atua com PET está no prejuízo. Estou à procura também de uma nova prensa para o papelão ¿ conta o presidente da cooperativa Sampaio, Salvador Soares dos Santos.
Indústria reduziu em 40% compra de PET para fibras
Graças à máquina, os 15 cooperados conseguiram manter suas retiradas mensais de até R$200, mais cesta básica. Situação oposta à vivida pela Six Qualit, que mantém 60 pessoas na coleta seletiva da usina do Caju. A cooperativa, que também tem unidades em Botafogo e Vargem Pequena, levou um calote de R$90 mil de dois intermediários quando os preços começaram a cair.
¿ Ficamos em dificuldades financeiras. Tivemos que atrasar o pagamento dos cooperados e só agora estamos colocando as contas em dia ¿ explica o presidente da Six Qualit, Cláudio Bittencourt.
As indústrias que usam material reciclado também sentiram a queda do dólar. Vladimir Kudrjawzew, sócio da fábrica de fibra de poliéster Unnafibra e diretor da Repet, empresa que recicla garrafa PET e fornece polímeros à Unnafibra, diz que o câmbio tornou inviável a exportação de materiais recicláveis do Brasil. Com o real mais forte e o produto brasileiro mais caro, a China, grande comprador até meados do ano, buscou outros mercados.
Além disso, o dólar fraco barateou bens finais da indústria têxtil chinesa e inundou as lojas brasileiras de camisas e calçados made in China. As fábricas brasileiras reduziram sua produção e passaram a comprar menos sucata. A Unnafibra vendia 2.300 toneladas de fibras de poliéster por mês no início do ano. Para isso, comprava 50 milhões de garrafas de PET ao mês. Agora, tem venda mensal de 1.400 toneladas e adquire 32 milhões de garrafas PET por mês ¿ uma queda de 40%.
¿ Muitas fábricas pequenas de reciclagem fecharam. Quem vendia para China quebrou ¿ conta o empresário que, dia 23, participa de um seminário sobre PET promovido pelo Fórum Estadual de Lixo e Cidadania.
Na unidade de Laranjeiras da Coopersul ¿ cooperativa de materiais recicláveis da Zona Sul ¿ não se trabalha mais com PET. O coordenador da unidade, Sidney Robson de Lima Ramiro, conta que apenas o papelão mantém preços razoáveis. O jornal, outro forte da cooperativa, recuou de R$1,70 o quilo para R$0,90. A lata de alumínio caiu de R$3,80 para R$2,90. A renda dos cooperados, que chegou a R$900 no início do ano, caiu para R$600.
¿ Os clientes não explicam direito a queda do preço. Uns dizem que foi o dólar, outros que a oferta cresceu. No jornal traz as cotações de chumbo, cobre e metal e é tudo em dólar mesmo. Mas não diz porque o preço caiu ¿ diz Ramiro.
Com expansão da economia, mais embalagens disponíveis
Para o diretor-executivo do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), André Vilhena, a razão da queda dos preços está mesmo no dólar:
¿ Alumínio e PET hoje já são commodities ¿ diz.
Mas a suspeita de alguns especialistas ¿ como Emílio Eigenheer, da UFF, e José Henrique Penido, da Comlurb ¿ de que a miséria nos centros urbanos agravou a situação, encontra respaldo no quadro econômico do país. Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas, lembra que só em São Paulo a pobreza cresceu 50% em dez anos. As crises que o Brasil atravessou nos últimos anos, diz Neri, foram sentidas com mais intensidade nas metrópoles. Mas a rede de proteção social do governo está na zona rural.
Some-se a isso um mercado de trabalho que exclui profissionais desqualificados. Neri aponta outra explicação para a maior oferta de recicláveis: com a retomada da economia desde 2004, a alta do consumo pode ter elevado a quantidade de embalagens, garrafas e latas disponíveis.