Título: Dobram em 23 anos as mortes por homicídio
Autor: Demétrio Weber
Fonte: O Globo, 10/11/2004, O País, p. 7

Dados do Ministério da Saúde divulgados ontem mostram que os homicídios responderam por 40,3% das mortes por causas externas no ano passado. Em termos percentuais, o índice mais do que dobrou em 23 anos. Em 1980, apenas 19,8% das mortes por causa externa foram provocadas por assassinato. Em números absolutos, as mortes por homicídio registradas no Sistema Único de Saúde (SUS) passaram de 13.910, em 1980, para 50.980 em 2003.

A pesquisa revela ainda que sete em cada dez homicídios registrados no SUS no ano passado foram provocados por arma de fogo. De 50.980 pessoas assassinadas em 2003 e cujos óbitos foram registrados no SUS, 36.081 foram vítimas de armas. Ou seja, 29% do total de mortes por causas externas em 2003 envolveram armas de fogo.

A participação das armas de fogo nos homicídios cresceu na última década. Em 1991, metade (50,3%) dos assassinatos foi provocada por armas. No ano passado, esse índice chegou a 70,8%, um crescimento de vinte pontos percentuais.

Despesas com internações vão a R$ 397 milhões em 2004

As despesas com internações por violência, inclusive acidentes de trânsito, já levaram o governo a gastar R$ 397 milhões, somente no período entre janeiro e setembro deste ano.

Alarmado com o peso das armas de fogo nas estatísticas de mortes e nas despesas hospitalares, o Ministério da Saúde e secretários estaduais e municipais da área lançam hoje a Carta da Saúde pelo Desarmamento. O documento será distribuído à rede hospitalar do país, com o objetivo de melhorar o atendimento às vítimas da violência e estimular a campanha do desarmamento coordenada pelo Ministério da Justiça.

Segundo o Ministério da Saúde, o governo gastou R$ 6,3 milhões até julho de 2004 com internações de pacientes vítimas de armas de fogo. Em 2003, hospitais públicos e particulares conveniados ao SUS registraram 753.304 internações por acidentes e violência, ao custo médio de R$ 643,10 por paciente ¿ 26% a mais do que nas internações por outras causas. De janeiro a setembro de 2004, ocorreram 564.869 internações. O gasto alcançou R$ 397.874.630,64, sem contar despesas ambulatoriais e de reabilitação.

Além da Carta da Saúde pelo Desarmamento, que será lançada pelo ministro Humberto Costa, serão divulgadas outras duas publicações, editadas com o intuito de ampliar a qualificação de gestores e profissionais de saúde e de disseminar hábitos preventivos entre a população, em especial entre as crianças e adolescentes.

265 mil mortos por arma de fogo entre 1991 e 2000

Em São Paulo, outro levantamento divulgado realizado pelo Núcleo de Estudos da Violência da USP revela que cerca de 265 mil pessoas morreram vítimas de armas de fogo entre os anos de 1991 e 2000. Do total, 92,3% são homens e 7,6%, mulheres. O Rio de Janeiro, segundo o estudo, lidera o ranking nesse tipo de crime. No estado, 26,2% das mortes violentas ocorridas nos anos 90 foram provocadas por tiros. São Paulo está em segundo lugar, com 22,5%. Juntos, os dois estados somam quase a metade (48,7%) dos homicídios provocados por armas de fogo na última década.

Estudo inclui suicídios e mortes em ações policiais

O elevado número de mortes provocadas por armas de fogo no Brasil, segundo o estudo, incluem, além de homicídios, suicídios, intervenções legais (ações policiais) e causas indeterminadas. Na comparação ao registro total de mortes violentas, o que ainda inclui acidentes de trânsito, por exemplo, o estudo verifica que o volume de mortes por armas de fogo aumentou de 20,9%, em 1991, para 29,9%, em 2000.

Mais de 90% das vítimas de tiros são homens entre 15 e 29 anos. O risco de um rapaz nessa idade ser assassinado é 20 vezes maior do que o de uma moça. Entre 1991 e 2000, o número de assassinato de rapazes entre 15 e 19 anos cresceu 52%. Já entre os que tinham entre 20 e 29 anos o aumento foi de 42,7%.

Entre as mulheres, a despeito da tendência de crescimento observada em diferentes faixas etárias, as mortes por armas de fogo estão em terceiro lugar no ranking. Os números são apenas menores às mortes no trânsito e por outros instrumentos (não apresentados na pesquisa).

Na comparação entre os 20 estados avaliados pela USP, o Rio de Janeiro aparece em primeiro lugar no ranking dos mais violentos. O Espírito Santo, que ocupava o sexto lugar em 1991, subiu para terceiro em 2000. Já Mato Grosso, que estava em 20em 1991 agora é o quarto lugar.

Aumento da violência em 22 das 26 capitais brasileiras

A contribuição das armas de fogo para mortes por causas externas aumentou em 22 das 26 capitais ¿ João Pessoa, Recife, Maceió, Aracaju, Salvador, Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Campo Grande e Cuiabá.

Na cidade do Rio de Janeiro, a proporção de mortes por armas de fogo diminuiu consistentemente de 1991 a 1996, passando de 46,5% para 31,5%. Desde 1997, no entanto, a porcentagem desse tipo de crime vem crescendo, atingindo, em 2000, seu ponto mais elevado: 48,2%.