Título: Palocci vai ficando
Autor: Ilimar Franco
Fonte: O Globo, 14/11/2005, O GLOBO, p. 2
Somente novos fatos podem mudar a determinação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O presidente decidiu, quinta-feira, durante encontro com Palocci, que ele fica. No dia seguinte, Lula fez questão de reunir a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e Palocci, para desfazer o mal-estar provocado pelas críticas da ministra ao ajuste fiscal.
A serenidade e o equilíbrio de Palocci sempre foram sua principal marca no governo. Mas em tempo de grandes paixões nem o ministro consegue deixar de ser tragado pelo ambiente. Por isso, definida sua permanência, Palocci pediu a Lula uns dias de folga. Ele viajou na sexta-feira e só volta a dar expediente na quarta-feira. Um amigo do ministro explicou que ele saiu para esfriar a cabeça. Pois se dependesse apenas de sua vontade ele já teria deixado o governo Lula.
Na conversa com Lula, Palocci reclamou do fogo amigo. Em resumo ele disse: dirigir a economia não é fácil, ajudar a gerenciar a crise política não é fácil, virar a bola da vez por causa de atos feitos por pessoas de suas relações não é fácil, mas é inaceitável que integrantes do governo usem esse momento de fragilidade para fazer luta política. Palocci terminou dizendo que agüenta tudo e fará o que for necessário para segurar a economia, a essa altura o grande trunfo de Lula para as eleições presidenciais, mas que não aceita críticas de dentro do governo.
O presidente ouviu as queixas do ministro e disse que não aceitava sua demissão. O presidente, segundo assessores, considera que a economia do país não naufragaria com a saída da Palocci, até mesmo porque ela vem reagindo bem apesar da pancadaria contra o ministro. Mas descartou sua saída por considerar que se trata de um símbolo do governo. No dia seguinte, Lula reuniu Dilma e Palocci e pediu à chefe da Casa Civil que moderasse o apetite. Candidamente, ela explicou que suas declarações não tiveram a intenção de atingir Palocci, mas criticar uma proposta formulada pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. Por conveniência, a evasiva da ministra colou.
A situação é de instabilidade. Palocci terá um duro teste no dia 22, quando falará na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Diante dos fatos negativos que o cercam, os petistas reconhecem que não sabem até quando Palocci conseguirá vender para os agentes econômicos credibilidade e confiança.