Título: PROMOTOR: MENSALINHO DE RIBEIRÃO ERA MAIOR
Autor: Eliane Oliveira, Lydia Medeiros e Luiza Damé
Fonte: O Globo, 14/11/2005, O País, p. 3
MP diz ter indícios de que corrupção favoreceria assessores de Palocci e não só o caixa 2 do PT
RIBEIRÃO PRETO. O promotor Sebastião Sérgio da Silveira, que investiga irregularidades na gestão do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, quando ele era prefeito de Ribeirão Preto (2000 a 2002), confirmou ontem que já tem indícios de que a corrupção na administração petista pode ter favorecido não só o caixa dois do PT. Segundo ele, parte do dinheiro foi para ¿outras pessoas¿, numa referência a ex-assessores de Palocci em sua segunda gestão como prefeito da cidade.
O Ministério Público Estadual, de acordo com Silveira, já tem documentos que podem comprovar que as propinas mensais recebidas na prefeitura petista de Ribeirão Preto podem superar os R$50 mil mensais que assessores de Palocci receberiam da empreiteira Leão & Leão, segundo denunciou o advogado Rogério Buratti.
¿ Já temos indícios de que houve superfaturamento também para favorecer financeiramente muitas pessoas ligadas ao então prefeito ¿ contou o promotor.
Superintendente de água e esgoto de Ribeirão Preto será ouvida
Os promotores ouvirão na quarta-feira o depoimento de Isabel Bordini, mulher de Donizete Rosa, atual diretor-superintendente do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro). Ela era superintendente do Departamento de Água e Esgoto de Ribeirão Preto (Daerp) e seu depoimento deve concluir o inquérito do delegado seccional da cidade, Benedito Antônio Valencise, sobre o caso de superfaturamento de obras e formação do caixa dois da prefeitura.
Isabel ficou no cargo entre 2001 e 2004, e o Ministério Público tem indícios de que os contratos de varrição e coleta de lixo da cidade com a empresa Leão & Leão teriam sido superfaturados com a participação dela. Num dos casos de superfaturamento na varrição de ruas, os promotores encontraram um bosque municipal que tem apenas dois quilômetros de ruas a serem varridas, mas a prefeitura pagava mensalmente pela varrição de oito quilômetros de ruas.
Isabel é mulher do atual diretor-superintendente do Serpro, Donizete Rosa, que também foi vereador, presidente do PT municipal e secretário de governo de Palocci quando prefeito de Ribeirão Preto, período no qual a empresa operou com notas fiscais que acabaram pagando despesas de campanha do PT.
Gráfica emitiu notas frias para justificar transferências
Entre as empresas está a Villimpres, uma gráfica que emitiu notas frias para esquentar o pagamento da prefeitura e transferências para o caixa dois eleitoral do PT. As notas fiscais teriam sido emitidas para campanhas políticas petistas com valores acima do serviço prestado. A prefeitura administrada por Palocci as teria pago e o valor da diferença teria sido entregue aos petistas.
O diretor-superintendente do Serpro é considerado um dos estrategistas financeiros do grupo de ex-assessores de Palocci agora envolvidos com denúncias de corrupção.
Donizete participou diretamente do processo de privatização da Ceterp (Centrais Telefônicas de Ribeirão Preto) quando o ministro da Fazenda era prefeito de Ribeirão Preto. Isabel integrou o serviço de água e esgoto da cidade num período em que se confirmou um contrato privatizado para o tratamento de esgoto dos quase 600 mil moradores, um negócio estimado em mais de R$30 milhões.
*Especial para O GLOBO