Título: Nas paredes e muros de Gaza, a devoção em cores fortes
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Fonte: O Globo, 10/11/2004, O Mundo, p. 31

Baha al-Qidra, da Cidade de Gaza, precisa de apenas um dia para pintar um mural de Yasser Arafat do tamanho de uma casa. Mesmo assim, não consegue atender à demanda.

A sensação de que o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP) está morrendo deflagrou um surto de devoção ao líder que simboliza a luta por um Estado palestino por mais de quatro décadas. A emoção é particularmente forte na Faixa de Gaza, lar do pai do ex-guerrilheiro, primeira parada em seu retorno do exílio e onde muitos esperam que seja enterrado.

¿ Já pintei nove murais gigantes do presidente Arafat em uma semana. E tenho outros 23 pedidos ¿ disse Qidra.

Os murais que homenageiam os mortos nos quatro anos de intifada colorem as ruas cinzentas da Cidade de Gaza. Os olhos dos ¿mártires¿ são uma lembrança permanente do conflito que atingiu a região duramente. Muitos são de líderes de grupos militantes. Os do xeque Ahmed Yassin e de Abdel-Aziz al-Rantissi, do Hamas, são os preferidos desde que foram mortos por mísseis israelenses.

Mas mais painéis de Arafat têm aparecido na cidade desde que ele foi para um hospital de Paris, no dia 29. A procura por murais aumentou ainda mais depois de anunciarem que estava em coma.

¿ Queremos mostrar que o amamos ¿ disse Youssef Sahmoud, ao encomendar um painel.

A última vez em que o presidente da ANP pisou na Cidade de Gaza foi em 2001. Israel o acusou de fomentar a violência e o manteve cercado em seu quartel-general, em Ramallah, na Cisjordânia, por mais de dois anos e meio.

¿ Se ele voltar vivo, vou pintar seu retrato em cada muro de Gaza ¿ disse Qidra.