Título: Meirelles e ex-presidentes do BC defendem a política econômica
Autor: Aguinaldo Novo
Fonte: O Globo, 22/11/2005, O País, p. 4

Só a miopia de uma esquerda burra é que não consegue ver esse efeito¿, diz Pastore

SÃO PAULO. Num discurso em defesa da atual política econômica, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirmou ontem que o país precisa de trabalho sério e ¿não de soluções mágicas¿. Neste sentido, segundo ele, o governo deve perseverar na busca de superávits primários e na convergência da inflação para as metas preestabelecidas.

¿ Nenhum dos países vencedores hoje no mundo buscou caminhos fáceis. Buscaram melhores resultados não só a curto prazo, mas a médio e longo prazos ¿ disse o presidente do BC. ¿ O Brasil precisa do trabalho do dia a dia, sério, duro, eficiente. É isso que vai fazer o Brasil chegar ao primeiro mundo, e não soluções mágicas.

Discurso sem citar Palocci nem Dilma

O pronunciamento de Meirelles, que participou de seminário promovido pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), acontece num momento em que o ministro da Fazenda, Antonio Palocci (superior hierárquico de Meirelles), é criticado abertamente dentro do próprio governo. Os ataques são liderados pela chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que defende aumento dos gastos públicos como forma de estimular a reação da economia.

Em recente entrevista, a ministra da Casa Civil chegou a classificar de rudimentar estudo preparado pela Fazenda e o Planejamento para ajuste das contas públicas a longo prazo. O temor do mercado é que o afrouxamento da política monetária sirva apenas a objetivos eleitorais, dada a proximidade do pleito do próximo ano.

Para Meirelles, que no seu discurso não citou nem Palocci nem Dilma, o país já tem condições de crescer ¿não só nos próximos trimestres, mas nos próximos anos¿. Ele disse ainda que a política determinada pela área econômica do governo ¿produz resultados sólidos¿.

¿ Às vezes, ficamos impressionados com os problemas. Mas devemos frisar o país que trabalha, que constrói, que segue as leis ¿ disse.

O duelo entre Palocci e Dilma também foi tema dos demais conferencistas, convidados inicialmente pela Febraban para falar sobre o mercado de crédito. Os economistas Affonso Celso Pastore e Gustavo Loyola, ex-presidentes do BC, condenaram a possibilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aumentar os gastos públicos às vésperas das eleições de 2006. Ambos citaram a chefe da Casa Civil nas suas críticas.

¿ É muito melhor para a economia ter corte de gastos e aumento de superávit (primário). Só a miopia de uma esquerda burra é que não consegue ver esse efeito ¿ afirmou Pastore, cujo nome chegou a ser mencionado nos últimos dias como um dos possíveis substitutos de Palocci na Fazenda.

Economista critica opinião de Dilma

Segundo ele, ¿é natural¿ que algumas alas do governo defendam um aumento de gastos com a proximidade das eleições. Mas, segundo ele, essa ¿é uma visão errada¿. Pastore entende que o governo provocaria maior inflação, o que inviabilizaria a redução futura dos juros.

¿ É uma visão dela (da chefe da Casa Civil). Mas é uma visão econômica errada. Você tem hoje uma opção de acelerar a redução dos juros contra a opção de aumentar os gastos públicos. Se aumentar os gastos, o governo terá de diminuir a redução do corte de juros.

Na avaliação de Gustavo Loyola, ao atacar Palocci, Dilma está ¿atirando contra aquilo que o governo vem apresentando de melhor¿.

¿ É difícil entender (a posição da ministra Dilma) de forma racional. Uma das raras áreas de sucesso do governo é justamente a da macroeconomia, do ministro Palocci ¿ disse o ex-presidente do BC.