Título: BRASILEIROS SABEM POUCO SOBRE DOENÇA
Autor: Fernando Duarte
Fonte: O Globo, 22/11/2005, O Mundo, p. 28
Unaids diz que 38% dos jovens ignoram formas de transmissão. Governo rebate
BRASÍLIA. O relatório anual do Unaids indica que os jovens brasileiros sabem pouco sobre a Aids, em especial nas camadas mais pobres da população. O documento destaca que 38% dos brasileiros entre 15 e 24 anos não sabiam como é transmitido o vírus HIV em 2004, conforme constatou pesquisa do Ministério da Saúde.
O diretor do Programa Nacional de DST Aids do Ministério da Saúde, Pedro Chequer, lembrou, no entanto, que esse percentual diz respeito à pesquisa espontânea. Quando os entrevistados foram confrontados com diferentes opções de resposta, o índice de desconhecimento sobre a transmissão da doença caiu para 9%.
Chequer critica Bush por pregar abstinência sexual
O relatório registra, entretanto, o avanço em termos do uso do preservativo na primeira relação sexual dos jovens brasileiros: de menos de 10% em 1986 para mais de 60% em 2003. O documento assinala também que a iniciação sexual dos jovens brasileiros está cada vez mais precoce.
Em 2004, 36% da população na faixa de 15 a 24 anos havia mantido a primeira relação sexual antes dos 15 anos. O percentual é superior ao registrado entre a população de 25 a 39 anos, em que uma parcela menor ¿ 21% ¿ havia mantido relações antes de completar 15 anos.
O diretor brasileiro atacou o governo dos Estados Unidos por pregar a abstinência sexual como principal forma de prevenção à Aids em programas que financia em países da África e da América Central. Chequer acusou o governo do presidente George W. Bush de adotar uma política anticientífica e fundamentalista, com risco de causar até um genocídio à medida em que contribua para reverter a tendência de diminuição do ritmo de expansão da Aids.
Chequer lembrou que o programa brasileiro de prevenção, elogiado pelas Nações Unidas, tem como base a distribuição gratuita e o incentivo ao uso de preservativos.
¿ A abstinência não funciona nem mesmo para o clero católico. Isso é fato, não podemos negar. Não podemos usar uma política que fere princípios da existência do ser humano ¿ disse Chequer.
O diretor regional para a América Latina e o Caribe do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Nils Arne Kastberg, lembrou que boa parte dos casos de Aids é transmitida por homens adultos a menores de idade em situações de estupro e abuso sexual. Assim, ponderou ele, não faz sentido falar em abstinência sexual.
O documento registra também a alta prevalência da doença entre grávidas no Rio Grande do Sul: de 3% a 6%, contra 0,6% na população em geral (362.364 casos notificados). Chequer esclareceu, porém, que esses níveis não abrangem todo o estado, mas apenas áreas específicas.