Título: MAIS DE 40 MILHÕES VIVEM COM O VÍRUS DA AIDS
Autor: Fernando Duarte
Fonte: O Globo, 22/11/2005, O Mundo, p. 28

Novo relatório da ONU e da OMS mostra que o número de casos de pessoas infectadas pelo HIV dobrou nos últimos dez anos

Por maiores que sejam os avanços da medicina no combate à Aids em termos de prevenção e tratamento, a marcha da doença continua implacável: de acordo com a edição de 2005 do relatório anual do Programa de Aids das Nações Unidas (Unaids) e da Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgado ontem, o número de casos de pessoas contaminadas com o HIV ultrapassou este ano a marca de 40 milhões, tendo dobrado em apens dez anos. Só em uma região, o Caribe, houve decréscimo no percentual de infecções, num ano em que cinco milhões de novos casos foram registrados no mundo.

O documento também confirmou a falha das duas entidades em sua tentativa de atingir a chamada meta 3x5, segundo a qual três milhões de pessoas em países pobres ou em desenvolvimento estaria recebendo tratamento até dezembro de 2005 ¿ ainda que o total de contemplados tenha subido de 400 mil para mais de um milhão desde 2003. De acordo com as estatísticas do Unaids e da OMS, doenças decorrentes do HIV fizeram 3,1 milhões de vítimas este ano, sendo mais de meio milhão menores de 15 anos. A África Sub-Saariana foi a região que registrou a maior mortandade, com uma estimativa geral de 2,4 milhões de óbitos.

¿ É claro que muita gente vai achar que o copo está dois terços vazio na questão do acesso ao tratamento. Mas preferimos considerar que o terço cheio representa um avanço positivo nos esforços mundiais contra a Aids, sobretudo quando o número de países a desenvolver programas de tratamento também está aumentando e os países mais ricos do mundo recentemente assumiram o compromisso de ajudar substancialmente a mudar esse quadro ¿ argumentou o australiano Andrew Ball, coordenador operacional do Departamento de Aids da OMS, numa referência à promessa do G-8 universalizar o acesso ao tratamento até 2010.

A região mais pobre do mundo, a África, concentrou o maior número de novos casos em 2005: 3,2 milhões (ou 64% do total geral), que elevaram as estimativas totais de pessoas contaminadas para assustadores 25,8 milhões, com quase seis entre dez ocorrências sendo em mulheres. Na América Latina, apesar dos elogios às iniciativas brasileiras de prevenção e combate à doença, as contaminações chegaram à marca de 1,8 milhão. O Brasil concentra um terço dos casos do continente.

O país causa apreensão ao Unaids e à OMS devido às estatísticas de iniciação sexual: citando dados de 2004, o relatório mostra preocupação com o fato de que 36% de adolescentes e jovens da faixa etária entre 15 e 24 anos tiveram relações sexuais antes do 15º aniversário, ao mesmo tempo que 62% mostraram ignorância diante dos riscos de transmissão do HIV. Também é citado o aumento do número de casos de contaminação entre mulheres, sobretudo as de baixa renda.

Porém, diferentemente do que ocorreu na edição de 2004, quando a vice-diretora executiva do Unaids, Kathleen Craveiro, acusou o governo brasileiro de não dar a devida atenção aos riscos de epidemia entre os viciados em drogas, o país ontem recebeu afagos da indiana Purnima Mane, diretora de políticas de parcerias da entidade, especialmente no que diz respeito à redução da reutilização de seringas.

¿ Três quartos dos 200 mil viciados em drogas injetáveis do Brasil usam seringas esterilizadas e isso é mais um reflexo da atenção e do bom trabalho que o governo brasileiro está fazendo em termos de tratamento e prevenção. O país é um exemplo nesse diálogo com a sociedade civil ¿ afirmou Mane.

Mais de 250 mil mortes evitadas

Apesar do flagelo africano, as regiões que registraram o maior índice de crescimento de incidência do HIV em 2005 foram Europa Oriental e Ásia Central (25%), seguidas da Ásia Oriental, que teve aumento de 690 mil para 870 mil casos nos últimos três anos. No entanto, por mais que as notícias em geral não sejam boas, a perspectiva do copo ao menos um pouco cheio não parece ser mero otimismo teimoso: o aumento no acesso a programas de tratamento fez com que a morte de um número entre 250 mil e 350 mil pessoas fosse evitada em 2005, segundo cálculos da OMS.

¿ Este é um resultado claríssimo dos benefícios e uma amostra do que pode ser atingido com um esforço conjunto, não somente de políticos e governos, mas da sociedade em si ¿ completou Ball.