Título: ITZHAK GALNUR
Autor: Renata Malkes
Fonte: O Globo, 22/11/2005, O Mundo, p. 29
`Israel está se voltando para a esquerda¿
JERUSALÉM. Professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, Itzhak Galnur disse ao GLOBO que há mudanças drásticas na política israelense e que se seu novo partido vingar Sharon pode enterrar o Likud.
Além da ameaça trabalhista, que motivos levaram Sharon a abandonar o partido que ele ajudou a criar e liderou?
ITZHAK GALNUR: Há mudanças drásticas na política. Ninguém pensaria em trabalhismo sem Shimon Peres ou no Likud sem Sharon. Tudo isso é o reflexo de mudanças no pensamento da sociedade. Demorou 40 anos para que os israelenses entendessem graves erros históricos de seus governos, como a expansão de colônias judaicas em territórios palestinos. Após duas intifadas, atentados e uma considerável queda nos índices sociais do país, o povo não quer mais saber disso. Israel está se voltando para a esquerda. Sharon compreendeu a necessidade de uma mudança de rumo, mas o conservadorismo do Likud o impedia de agir.
Aos 77 anos, Sharon parece lutar por seu último mandato como premier. Não é um risco abandonar um partido considerado o maior de Israel em favor de uma nova legenda?
GALNUR: É um risco enorme, mas desde já é seguro que Sharon leva o voto de grande parte dos eleitores do Likud. O câncer do partido é o comitê central, formado por radicais. O comitê elege seus representantes no Parlamento e este é um dos motivos pelos quais Sharon optou por sair. Mesmo se mantivesse o comando do partido, não poderia ter os deputados que gostaria. Quando o novo partido estiver estabelecido, ele ainda vai dizer ser o verdadeiro Likud, numa manobra que pode neutralizar ou acabar com o que restou dele após sua saída.
As mudanças políticas apontam para uma disputa eleitoral acirrada entre Peretz e Sharon. O que muda na perspectiva de resolução do conflito com os palestinos diante disso?
GALNUR: Temos aí uma excelente oportunidade para a paz. Sharon terá de rever os rumos de sua política visando ao diálogo e à retomada do Mapa da Paz. Peretz, que é a maior surpresa da reviravolta no cenário político, fala abertamente sobre a paz. Não tem vergonha de lembrar as tentativas de Oslo, admite ser contra a colonização de terras palestinas e pode trazer uma visão renovadora. (R.M.)