Título: SHARON DEIXA LIKUD APÓS 32 ANOS E CRIA PARTIDO
Autor: Renata Malkes
Fonte: O Globo, 22/11/2005, O Mundo, p. 29

Primeiro-ministro de Israel abandona legenda de direita, funda outra de centro e pede convocação de eleições gerais

JERUSALÉM. O primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, desligou-se oficialmente do conservador partido Likud e anunciou ontem a criação de uma nova legenda para concorrer à reeleição, dando fim a uma semana de especulações sobre seu futuro político. Logo pela manhã, Sharon se reuniu com o presidente de Israel, Moshe Katsav, e pediu a dissolução do Parlamento e a antecipação das eleições gerais, que devem acontecer no fim de março. O novo partido ganhou o nome temporário de Responsabilidade Nacional e promete adotar uma linha centrista, trabalhando na retomada do Mapa da Paz, plano para estabelecer fronteiras permanentes para Israel e possibilitar a criação de um Estado palestino.

¿ A vida no Likud ficou insuportável. Permanecer era perda de tempo em conflitos políticos no lugar de atividades para o futuro do Estado. Tenho quase certeza de que se ficasse venceria as eleições internas e levaria o partido à vitória. Pessoalmente seria mais seguro, mas prefiro o bem do país a meus interesses pessoais. O povo me escolheu para representá-lo porque confia em mim, não para esquentar uma cadeira. Estamos hoje criando um partido que vai servir Israel por muitos anos ¿ disse ele.

O desafio do premier nos próximos dias é atrair aliados para o novo partido. Fontes ligadas ao vice-premier Shimon Peres descartaram a possibilidade de ele romper com o Partido Trabalhista para juntar-se a Sharon. Entre deputados e figuras do alto escalão do governo, como a ministra da Justiça, Tzipi Livni, e o ministro dos Transportes, Meir Shtrit, pelo menos 14 dos 40 deputados do Likud no Parlamento decidiram renunciar e seguir Sharon em sua nova empreitada. Cogita-se a possibilidade de alianças para trazer generais como o ex-vice-comandante das Forças Armadas Gabi Ashkenazi e o ex-diretor do serviço de segurança interna Avi Dichter para as fileiras do partido.

A saída coletiva do Likud abriu uma nova disputa pelo comando do partido de direita, liderada pelo ex-ministro das Finanças Benjamin Netanyahu e pelo deputado Uzi Landau, representante da linha ultraconservadora que se opôs ao plano de retirada unilateral da Faixa de Gaza. Após negociações e a promessa de permanecer no cargo num futuro novo governo, o ministro da Defesa, Shaul Mofaz, surpreendeu Sharon, negando o convite para filiar-se ao Responsabilidade Nacional.

O fim do atual governo foi discutido em oito moções e aprovado pela Knesset, o Parlamento israelense, por uma maioria de 80 votos (há 120 deputados na Casa). A manobra veio a confirmar os boatos gerados na última semana após a inesperada ascensão do sindicalista Amir Peretz à liderança do Partido Trabalhista no lugar do veterano Shimon Peres. Peretz convocou os trabalhistas a abandonar imediatamente o governo de coalizão que sustentava Sharon para protestar contra a proposta de orçamento para o próximo ano e por divergências na área socioeconômica com o Likud, mergulhado numa séria crise ideológica após a remoção dos assentamentos judaicos em Gaza.

Analistas acreditam que a renúncia do primeiro-ministro não chega a ser surpreendente, mas apenas oportunista diante da crise no Gabinete. Conhecido como líder pragmático, Sharon tem fama de desfazer projetos sem titubear. Em 1977 abandonou o partido Shlomtzion para voltar ao Likud ¿ que fundara em 1973 ¿ e ficar sob o comando do ex-premier Menachem Beguin. A mais recente prova do caráter ousado foi o desmantelamento das colônias em Gaza, que incentivara e financiara ao longo das três últimas décadas.

Pelos menos 11 israelenses ficaram feridos e três combatentes do grupo radical islâmico Hezbollah morreram em confronto na região das Granjas de Shebaa, próxima à fronteira com o Líbano. Segundo fontes militares, os guerrilheiros abriram fogo contra bases do Exército no norte de Israel e, em resposta, aviões bombardearam supostas posições da guerrilha no sul do Líbano. O enfrentamento durou ao menos duas horas e é considerado o mais grave desde que Israel retirou suas tropas do país vizinho, há cinco anos.

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