Título: FRANÇA: MINISTRO CULPA POLIGAMIA POR REVOLTA
Autor: Deborah Berlinck
Fonte: O Globo, 17/11/2005, O Mundo, p. 36
Conservadores dizem que estrutura familiar de muçulmanos provoca comportamento anti-social de jovens
PARIS. A direita francesa mergulhou numa busca por culpados da revolta dos jovens - muitos deles franceses de origem árabe muçulmana - que tomou conta das periferias do país. Dois importantes políticos conservadores disseram ontem que a poligamia, praticada sobretudo por famílias muçulmanas, está por trás dos distúrbios. A França tem estimados cinco milhões de muçulmanos.
Sarkozy tem apoio de 68% dos franceses, diz pesquisa
Ao mesmo tempo, uma pesquisa divulgada ontem revelou que quase sete franceses em cada dez (68%) aprovam a ação do ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, para combater a violência nos subúrbios. Sarkozy adotou uma linha-dura e chegou a classificar jovens que incendiavam carros e se confrontavam com a polícia de "escória da sociedade". A pesquisa confirma não apenas a popularidade de Sarkozy, mas também o apoio da maioria da população a seus métodos de ação.
A sondagem revela, por exemplo, que 63% dos franceses aprovam a idéia do ministro de expulsar jovens estrangeiros envolvidos na revolta. Sarkozy é hoje o político com mais chances de chegar à Presidência da França, nas eleições de 2007.
Numa entrevista ao jornal inglês "Financial Times", o ministro do Emprego, Gerard Larcher, disse que alguns jovens têm comportamento anti-social porque foram criados em famílias polígamas. A falta de um pai presente teria contribuído para o "comportamento anti-social". É por isso, argumentou ele, que empregadores relutam em contratá-los.
- Como parte da sociedade apresenta este comportamento anti-social, não surpreende que alguns deles tenham dificuldades para encontrar trabalho - afirmou.
O ministro, que representa um governo que prometeu dar mais empregos a minorias, não parou por aí. Disse que esforços têm de ser feitos pelos dois lados, por empregadores e jovens.
- Se as pessoas não forem empregáveis, não serão empregadas - alfinetou.
Assessor tenta minimizar declaração de Larcher
Larcher disse que acompanhou pessoalmente o caso de um jovem detido pela polícia que vinha de uma família polígama. Um assessor do ministro tentou justificar os comentários do chefe, dizendo que o ministro quis citar apenas um exemplo, porque jovens de famílias polígamas não têm pontos de referência.
O ministro não é o único a fazer tal declaração. Bernard Accoyer, líder do partido que governa o país, a União por um Movimento Popular (UMP), na Assembléia Nacional (a Câmara dos Deputados francesa), disse que os filhos de grandes famílias polígamas têm dificuldades de integração na sociedade francesa. Accoyer pregou a solução que muitos franceses nas ruas - sobretudo, os conservadores - defendem: dificultar a imigração.
- Há claramente um problema com imigrantes e seus filhos. Para que possamos integrá-los, não deve haver um número maior deles do que a nossa capacidade de integrá-los. A poligamia é certamente uma das causas dos distúrbios, embora não seja a única - disse.
Para o líder da UMP, a poligamia leva a "uma incapacidade de fornecer a educação necessária em uma sociedade organizada e normativa como na Europa e, sobretudo, na França". Nas últimas semanas, jovens dos subúrbios das cidades francesas incendiaram quase nove mil carros e destruíram bens públicos em protesto contra a exclusão e a discriminação.
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Legenda da foto: MANIFESTANTES PROTESTAM contra governo francês: "Não ao regime de exceção, por um estado de urgência social"