Título: Um ensaio para 2006
Autor: Adriana Vasconcelos
Fonte: O Globo, 19/11/2005, O País, p. 3

FH chama Lula para o confronto eleitoral e diz que tucanos devolverão ao país a decência

No dia em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu que será candidato à reeleição para depois voltar atrás alegando ter cometido um lapso, os tucanos aproveitaram a VIII Convenção Nacional do PSDB, que elegeu o senador Tasso Jereissati (CE) presidente do partido, para fazer duros ataques ao governo Lula e ao PT, antecipando o clima da disputa de 2006. O ex-presidente Fernando Henrique chamou Lula para o confronto eleitoral. Nem mesmo um mal-estar momentâneo, causado pelo forte calor que fazia no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, levou Fernando Henrique a aliviar os ataques. Num discurso inflamado, disse que os tucanos devolverão ao país o que a população espera de um governo: decência.

¿ Chegou a hora da virada. Vamos ganhar as eleições e restituir o que o povo espera de qualquer governo: a decência. A decência é precondição, mas é preciso saber o que fazer com ela. Pior são os indecentes, que além de não saber o que fazer, ainda por cima entram na corrupção ¿ disse.

Ao chamar Lula para a disputa eleitoral do próximo ano, Fernando Henrique desafiou o presidente a apresentar promessas que possa cumprir:

¿ Acho muito importante que o presidente Lula seja um dos nossos adversários. Queremos ganhar nas urnas. Vamos prestar atenção ao que o candidato Lula vai dizer ao país, o que ele vai prometer novamente. Vai prometer o quê? E se prometer, quem afiança que ele cumprirá? A pior coisa que pode acontecer a um homem público não é a perda de popularidade, mas a perda de respeito.

Fernando Henrique lamentou que o Brasil enfrente hoje um processo de corrupção das instituições, mesmo evitando acusar diretamente Lula e admitindo que nem sempre um presidente sabe tudo o que acontece em seu governo. Na sua opinião, já há provas suficientes para que o Ministério Público puna os responsáveis:

¿ Ladrão é na cadeia e há de se dizer quem é ladrão. Não adianta simplesmente querer jogar todo mundo na vala comum, dizendo que todos fazem. Todos não! Diga quem fez e bote na cadeia. Todos sabemos, há gente sim que roubou. E quem roubou deve ir para a cadeia. Dinheiro público é de todos. Isso não é perdoável ¿ acrescentou, em tom enfático.

Fernando Henrique disse que já assistiu à queda de mais de um presidente, mas nunca havia visto um processo de corrupção como o atual:

¿ Em determinado momento tivemos o impeachment de um presidente, mas os fatos alegados eram privados. Não envolviam um partido, nem um governo. Assisti à queda de mais de um presidente, mas nenhum deles, fosse Getúlio ou Jango, foi acusado de ter corrompido as instituições. Não acuso o presidente, mas o processo que aí está é de corrupção das instituições. Compra de voto para ter apoio no Congresso é inaceitável.

Segundo ele, isso não acontecerá com o candidato do PSDB.

¿ O nosso candidato vai poder falar cara a cara, não vai precisar de marqueteiro para isso. Nós não precisamos de marqueteiro. Não funciona, é muito caro. Nós não temos esse dinheiro, não temos conta lá fora ¿ alfinetou, numa referência indireta ao trabalho do publicitário Duda Mendonça na campanha do PT de 2002.

Em outra estocada, Fernando Henrique cobrou do presidente a comprovação de tudo aquilo que o governo anuncia que está fazendo no país.

¿ Essa é a diferença de estilo. Sobretudo na maneira direta e simples de falar. E dizer coisas que depois possam ser comprovadas. E não ficar o tempo todo falando para quem não tem informação. É fácil enganar quem não tem informação ¿ afirmou.

O ex-presidente evitou antecipar seu apoio a qualquer um dos pré-candidatos do PSDB à Presidência ¿ José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves ¿ e ainda embaralhou a disputa ao dizer que Tasso Jereissati também é uma boa opção. Na sua opinião, a escolha deve ser feita mais adiante:

¿ São muitos os fatores que influirão nesta escolha. Se você for contrariar a tendência que emana da sociedade, não dá certo.

Governo e PT reagem aos ataques

O ministro de Relações Institucionais, Jaques Wagner, rebateu as críticas dizendo que Fernando Henrique não segue a tradição de ex-presidentes, que é a de agir de maneira discreta e construtiva. O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT), também rebateu os tucanos:

¿ Foram inúmeras as denúncias, e muito graves no governo anterior, especialmente nas privatizações, que foram de US$87 bilhões. A diferença é que hoje tudo é apurado e os responsáveis serão punidos. Isso não foi possível no passado. Muita coisa foi varrida para baixo do tapete sem transparência e sem a devida apuração.

COLABORARAM: Lydia Medeiros e Ilimar Franco

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