Título: Divergências até no momento da exoneração
Autor: Evandro Ébo
Fonte: O Globo, 11/11/2004, O País, p. 9
O ministro Humberto Costa e seu ex-secretário-executivo Gastão Wagner divergiram até mesmo no momento da exoneração. Na nota divulgada ontem à tarde, o Ministério da Saúde anunciava que, ¿em reconhecimento ao serviço prestado pelo sanitarista¿, Costa convidara Gastão a assumir a representação brasileira no conselho executivo da Organização Mundial da Saúde (OMS). Wagner, no entanto, recusou o convite.
¿ Se não posso trabalhar na secretaria, não posso representar o governo em cargo algum ¿ disse Wagner.
Na nota, o ministério confirma a exoneração do secretário-executivo e atribui sua saída à ¿readequação do papel da secretaria executiva e a visões diferenciadas sobre o encaminhamento desse processo¿. O chefe de gabinete do ministro, Antônio Alves de Souza, assume interinamente a vaga de Wagner. A exoneração do atual secretário e a nomeação do interino serão publicadas hoje no Diário Oficial.
Ex-secretário-executivo é ligado a movimentos sociais
Wagner disse que tinha um conjunto de divergências com Costa. Ele afirmou que seu estilo era diferente do adotado pelo ministro e se define como um militante da saúde. O ex-secretário-executivo sempre atuou próximo dos movimentos sociais.
Wagner não é o primeiro assessor de relevância que o ministro perde desde que assumiu o cargo. A Operação Vampiro, deflagrada pela Polícia Federal, em maio deste ano, derrubou outros importantes assessores de Costa, supostamente ligados a um esquema de fraudes em licitações, entre elas a de compra de hemoderivados.
Depois de deflagrada a operação da PF, Costa teve que exonerar a maior parte dos integrantes da Coordenação Geral de Logística. O setor concentra todas as compras do ministério. Gravações feitas pela PF mostraram que havia um esquema para beneficiar lobistas e as empresas que eles representavam junto ao ministério.
Wagner coordenou implantação do SUS
Wagner foi secretário municipal de Saúde de Campinas (SP) e coordenou a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) na cidade. Ele é professor titular do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Unicamp. Publicou livros sobre o projeto Paidéia, sobre política de saúde e sobre gestão. Sua produção acadêmica soma mais de dez artigos internacionais e outra dezena de publicações em revistas nacionais.
Este ano, o ex-secretário-executivo foi o ganhador do Prêmio Opas Administração 2004, concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde, a mais antiga organização de saúde do mundo. A organização conferiu o prêmio anual pela sua ¿excepcional contribuição para a transformação do modelo de atenção de saúde mediante o aperfeiçoamento de um método de gestão que fomentou a democratização dos serviços, fortalecendo os vínculos entre os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil¿.