Título: Metade do PIB fora das capitais
Autor: Luciana Rodrigues, Aguinaldo Novo e Carlos Vasconc
Fonte: O Globo, 19/11/2005, Economia, p. 31

Petróleo, agricultura e descentralização da indústria impulsionam o interior, segundo IBGE

Osucesso do agronegócio, o aumento na produção de petróleo e a maior descentralização da indústria deram gás ao interior do Brasil que, hoje, já responde por metade do Produto Interno Bruto nacional (PIB, soma de todas as riquezas geradas pelo Brasil). Os municípios fora das capitais e regiões metropolitanas, que em 1999 produziam 46% da riqueza nacional, em 2003 saltaram para 49,7%, informou ontem o IBGE.

São cidades como as fluminenses Campos e Macaé, onde a riqueza aflora do petróleo, ou a mineira Uberlândia, amparada na agropecuária e indústria de alimentos e de biotecnologia, que já respondem por mais de 0,5% do PIB nacional. A lista se completa com as paulistas São José dos Campos (sede da Embraer) e Sorocaba (com uma indústria diversificada), atenuando uma concentração de riqueza que, há anos, mantém 25% do PIB brasileiro em só dez municípios.

¿ Há uma tendência de as atividades econômicas saírem da capital, mas a riqueza ainda é muito concentrada no Brasil ¿ explica Sheila Zani, coordenadora da pesquisa.

Participação do Rio caiu para 4,3%

O outro lado do avanço do interior aparece nas perdas das grandes capitais, mais suscetíveis às oscilações da economia num período em que o país atravessou seguidas crises. O Rio de Janeiro, que em 1999 respondia por 5,6% do PIB do país, viu sua participação cair para 4,7% em 2002 e 4,3% em 2003. Em São Paulo, a queda foi de um ponto percentual só em 2003, quando o município respondeu por 9,4% do PIB brasileiro.

O economista Eustáquio Reis, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta a mudança no regime cambial brasileiro ¿ em 1999, quando houve a maxidesvalorização do real ¿ como o impulso para os ganhos do interior. Com o câmbio mais favorável, a agropecuária e as atividades extrativas em geral, como o petróleo, voltadas para a exportação, ganharam fôlego.

No caso do petróleo, além do câmbio, os preços internacionais fizeram a diferença. A cotação média do barril, que foi de US$28,89 em 2002, saltou para US$38,23 no ano seguinte. Com isso, o município de Campos, que era o 27º no ranking nacional em 1999, chegou à sexta posição em 2003. O interior do Estado do Rio já representa 44,3% do PIB fluminense. Enquanto isso, capital e região metropolitana perderam espaço. Em São Gonçalo, que teve o segundo pior desempenho do estado, atrás apenas do Rio, a riqueza só aparece no nome das vias, como a Rua Turquesa, no Jardim Catarina, com valões de esgoto a céu aberto.

¿ Aqui não tem emprego, não tem nada. Quando chove, a rua alaga e não conseguimos sair de casa ¿ queixa-se José Hilário Monteiro, de 72 anos, que mantém a casa onde mora com a mulher e o filho Gilson, desempregado, com R$300 da aposentadoria.

Afetada de forma mais acentuada pela desaceleração da economia, a cidade de São Paulo viu seu peso no PIB estadual recuar de 31,9% em 2002 para 29,8% no ano seguinte.

Produção agrícola é mais bem distribuída

Escaparam da crise econômica em 2003 as cidades paulistas que abrigam atividades ligadas à exportação ou que ganharam com a variação de preços relativos, como Paulínia, sede da maior refinaria da Petrobras.

¿ Cidades como São Paulo, com um parque industrial mais integrado, sofreram mais porque um setor puxa o outro para baixo ¿ afirmou o chefe da Divisão de Estudos Econômicos da Fundação Seade, Miguel Matteo.

Enquanto a indústria é concentradora de riqueza ¿ apenas oito municípios detêm 25% do PIB do setor ¿ a agropecuária distribui melhor sua produção. Ao todo, 164 municípios respondem por 25% da atividade. Mas passados os anos de bonança entre 1999 e 2003, o cenário daqui para frente é desfavorável:

¿ Em 2006 e 2007 vamos ter uma redução de 5% a 6% da área plantada ¿ diz André Pessôa, sócio-diretor da Agroconsult, culpando a queda do dólar e os juros altos.

SETOR PÚBLICO SUSTENTA MUITAS CIDADES NO PAÍS, na página 32