Título: Até os EUA mudaram o discurso¿
Autor: Demétrio Weber e Gralda Doca
Fonte: O Globo, 19/11/2005, Economia, p. 36

Carlos Lopes, editor-chefe do relatório, assumiu este mês como diretor político do Gabinete do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, em Nova York.

Como a desigualdade racial compromete o desenvolvimento do Brasil?

CARLOS LOPES: A ausência de uma parte da população no pleno exercício de seus direitos limita as oportunidades, que são o cerne da definição de desenvolvimento humano. Mesmo do ponto de vista de mercado não é bom tirar parte da população do consumo, da produção e da geração de riqueza.

Como a ONU vê as cotas em universidades públicas?

LOPES: Elas foram a porta de entrada para a ação afirmativa, mas pecam por copiarem um modelo que está muito carregado pela história dos EUA. Até lá já mudaram um pouco o discurso para igualdade de oportunidades. O que há de errado com cotas é elas serem insuficientes. O verdadeiro debate que permite a ação afirmativa não se pode esgotar em números, tem de ir além das estatísticas.

Um ponto muito enfático do texto é a questão da violência. O senhor acredita que este é o tema mais urgente na questão racial no país?

LOPES: Não se pode aceitar que um país moderno conviva com os índices (de violência) que o Brasil conhece e que afetam os negros de forma desproporcional. A condição primeira do desenvolvimento é a segurança humana. (Flávia Oliveira)