Título: RIQUEZA MÓVEL
Autor:
Fonte: O Globo, 23/11/2005, Opinião, p. 6
Em pesquisa sobre o PIB dos municípios brasileiros, realizada em 5.560 cidades, o IBGE detectou mudanças na riqueza do país: ela está agora localizada, em 50% do total (49,7%, para ser preciso), fora das regiões metropolitanas e capitais.
É um bom sinal ¿ sobretudo num país que sempre se caracterizou pela concentração da riqueza. É um índice de modernidade, que se contrapõe ao retrato de um Brasil antigo e tradicional ¿ aquele que chegou a ser descrito como um verdadeiro arquipélago de centros urbanos, separados por vastidões incultas.
Há diversos motivos para essa nova localização da riqueza. Um dos mais visíveis é o chamado agronegócio, que foi invadindo o interior brasileiro até bater literalmente na Floresta Amazônica. Atividades como a soja, por exemplo, fazem de Goiás um estado sui generis, onde 71% da riqueza vêm do interior.
O petróleo é um outro motivo, enriquecendo municípios como os do Norte Fluminense (o que ¿interioriza¿ a riqueza, mas produz menor distribuição de renda do que o agronegócio). E ainda um outro é o que se verifica no mundo inteiro: recolocação de fábricas, em busca de mão-de-obra mais barata (ou então, no caso brasileiro, como efeito da ¿guerra fiscal¿ entre municípios ¿ que tem os seus contratempos mas que não deixa de atrair atividade econômica para os núcleos de pobreza).
Essa desconcentração da riqueza tem um efeito ambíguo em relação aos grandes centros. De um lado, afrouxa o laço da pressão demográfica, que começou a ser apertado nos anos 60, e quase levou ao colapso cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. A partir daí, políticas públicas de habitação e saneamento poderiam ser pensadas de modo menos emergencial.
Mas também será preciso, por tudo o que está dito acima, dar uma atenção especial às cidades, aperfeiçoar os mecanismos de administração urbana ¿ na medida em que os recursos parecem estar se deslocando para outros destinos.
Não seria justo que, depois de terem sido sacrificadas em nome da corrida para o desenvolvimento, as grandes cidades passassem a sofrer mais por conta dos novos rumos do dinheiro.