Título: RELATÓRIO DA CPI DA TERRA CONDENA A UDR E POUPA O MST
Autor: Evandro Éboli
Fonte: O Globo, 20/11/2005, O País, p. 17

BRASÍLIA. Dois anos depois de seu início, a CPI da Terra encerra seus trabalhos no mesmo clima de divergência que marcou suas reuniões. O relatório ficou pronto na sexta-feira e promete polêmica. O relator, deputado João Alfredo (PSOL-CE), critica ruralistas e entidades patronais do campo e preserva os que lutam pela reforma agrária, principalmente o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Entre as 150 recomendações de seu relatório, João Alfredo pede ao Ministério Público Federal que indicie o presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antônio Nabhan Garcia, por porte ilegal de arma e contrabando. O relator está convencido de que Nabhan apareceu encapuzado em uma reportagem da TV Globo, exibida em julho de 2003. Ele estaria com funcionários de sua fazenda, praticando tiro ao alvo, como num treino de uma milícia. Alfredo tomou como base o depoimento de outro fazendeiro.

João Alfredo diz que a UDR é uma entidade polêmica do patronato rural e que seu crescimento coincidiu com o aumento da violência no campo. Afirma que a UDR é violenta e que alguns de seus líderes respondem a processos por crimes contra trabalhadores em luta por terra. Esses fatos confirmam o estigma da UDR de ser uma entidade que promove a violência no campo", diz o relator.

O MST recebe elogios e aparece no documento como "herdeiro das grandes lutas populares dos últimos 500 anos". O relatório cobra o cumprimento da meta de assentar 450 mil famílias até o fim de 2006. Dedicado às vítimas da violência no campo, destaca que o Brasil tem um dos mais altos índices de concentração fundiária do mundo: 2,6% dos imóveis rurais ocupam 51,3% da área das fazendas. As pequenas propriedades (90,4% dos imóveis) ocupam só 27% da área cadastrada no Incra.

'O MST é uma facção criminosa e revolucionária'

BRASÍLIA. O presidente da UDR, Luiz Antônio Nabhan Garcia, reagiu às acusações de João Alfredo e negou que tivesse participado das gravações da reportagem sobre milícias armadas. Nabhan acusou o relator de "advogar para o MST" e, por isso, não ter legitimidade para relatar a questão fundiária:

- João Alfredo é um radical de esquerda e o MST é uma facção criminosa e revolucionária, que responde a processos por desvio de verba. Seus líderes estão condenados a dez anos de cadeia.

João Alfredo recomenda o fortalecimento do Incra, da Funai e do Ibama. Pede, ainda, que a Polícia Federal crie força-tarefa para capturar 29 mandantes de crimes contra trabalhadores rurais. Ele excluiu das conclusões relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU) apontando irregularidades na Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca), da Confederação Nacional das Cooperativas de Reforma Agrária (Concrab) e do Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (Iterra).