Título: Acho que desta vez ele não tem saida
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Fonte: O Globo, 24/11/2005, O Mundo, p. 30
BUENOS AIRES. A decisão da Justiça de processar e ordenar a prisão domiciliar de Pinochet deixou um gosto amargo entre grupos de defesa dos direitos humanos. ¿Finalmente, vai acontecer o que sempre dissemos: Pinochet será julgado como ladrão e não como violador dos direitos humanos¿, disse ao GLOBO a vice-presidente da Associação de Familiares de Presos Desaparecidos, Mireya Garcia, por telefone, de Santiago.
Como a senhora recebeu a notícia da prisão?
MIREYA GARCIA: Sinceramente, fiquei um pouco decepcionada. Claro que era o que esperávamos. Finalmente, vai acontecer o que sempre dissemos: Pinochet será julgado como ladrão e não violador dos direitos humanos. No que diz respeito às acusações de violações dos direitos humanos, a Justiça mostrou-se benevolente para com Pinochet.
Sua organização esperava outra atitude da Justiça chilena?
GARCIA: Sim. Se hoje (ontem) ele foi indiciado por sonegação tributária é porque está em condições de ser julgado. Ou seja, tudo o que foi dito antes sobre sua suposta incapacidade mental para enfrentar um julgamento é falso. Hoje (ontem), ficou mais claro para nós como pensa a Justiça chilena. Pinochet deveria ter sido processado por tudo o que fez durante o regime militar e não apenas por delitos econômicos. Ficou claro que o dinheiro pesa mais do que a morte de milhares de pessoas. E isso é doloroso.
Não é a primeira vez que a Justiça ordena sua prisão...
GARCIA: Sim, mas desta vez é diferente porque já foram realizados todos os exames médicos. Nos outros casos, os exames foram posteriores e isso ajudou Pinochet a escapar da Justiça. Acho que desta vez ele não tem saída.
A senhora acredita que os casos sobre violações dos direitos humanos também avançarão nos próximos meses?
GARCIA: Espero que sim, temos muitos elementos para provar a culpabilidade de Pinochet. O problema é que os juízes encarregados destes casos estão menos comprometidos com a busca da verdade.
Semana passada, Pinochet disse: ¿Tudo o que fiz, todos os problemas que tive, eu os dedico a Deus, ao Chile, porque isso permitiu que o país não fosse comunista e crescesse até hoje.¿ Como a senhora recebeu essa declaração?
GARCIA: Acho que se existe um Deus ele jamais perdoará o que Pinochet fez. Mas tudo isso faz parte de uma personalidade perversa que já estamos cansados de conhecer.
Pinochet acusou seu ex-subalterno Manuel Contreras de ser responsável pelas operações de repressão de seu governo...
GARCIA: Essa guerra de acusações é ridícula. Claro que é mais fácil culpar o outro do que assumir cada um sua responsabilidade. Tudo isso mostra que classe de pessoas são Pinochet e Contreras, os dois estão tentando se salvar acusando o outro.
Quantos militares já foram processados no Chile?
GARCIA: Cerca de 350 militares. Mas condenações temos apenas três.