Título: PINOCHET EM PRISÃO DOMICILIAR
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Fonte: O Globo, 24/11/2005, O Mundo, p. 30
Ex-ditador do Chile é indiciado por crime de corrupção às vésperas de completar 90 anos
SANTIAGO
Adois dias de completar 90 anos e abandonado pela maior parte de seus seguidores, o ex-ditador chileno Augusto Pinochet foi posto ontem sob prisão domiciliar, acusado de ter contas bancárias sob nomes falsos no exterior que teriam movimentado US$27 milhões. Pinochet ¿ que há anos advogados tentam levar aos tribunais para responder por violações dos direitos humanos ¿ está sendo processado por evasão fiscal, falsificação de passaporte, uso de documentos oficiais falsos para abrir as contas e declaração incompleta de bens.
O indiciamento e a ordem de prisão, emitidos pelo juiz Carlos Cerda, foram comunicados ao general por uma oficial de justiça em sua casa em La Dehesa, bairro nobre de Santiago. Cerda fixou uma fiança de US$23 mil, numa medida a ser submetida à Corte de Apelações. É a primeira vez que Pinochet é indiciado por acusações não relacionadas a abusos dos direitos humanos durante sua ditadura (1973-1990), quando mais de três mil opositores morreram ou desapareceram.
Segundo a acusação, Pinochet teria sonegado US$2,4 milhões em impostos de 1980 a 2004. Sua mulher, Lucía Hiriart, e o filho mais novo, Marco Antonio Pinochet, foram postos em liberdade sob fiança após serem presos em agosto, acusados de cumplicidade.
¿ Hoje são crimes econômicos. Vamos esperar que amanhã seja por genocídio ¿ comemorou Lorena Pizarro, presidente da Associação de Parentes de Presos Desaparecidos.
A decisão de Cerda, no entanto, não garante que o processo siga até o final. Nos últimos cinco anos, Pinochet foi indiciado outras duas vezes por violação de direitos humanos, mas os casos foram suspensos devido a problemas de saúde.
Outro indiciamento seria iminente
Prestes a completar 90 anos, com a saúde debilitada pela diabetes e com um marcapasso, Pinochet volta ao centro de um processo judicial, desta vez mais sozinho e desprestigiado, principalmente devido às acusações de enriquecimento ilícito que decepcionaram muitos pinochetistas.
Médicos que o examinaram no mês passado declararam que, embora sofra de demência moderada, tem condições de ir a julgamento. Além disso, considera-se iminente que ele seja processado pela Operação Colombo, montada em 1975 pela Dina, a polícia secreta, para encobrir o desaparecimento de 119 pessoas. Na terça-feira, ele admitiu que chefiava a Dina.
¿ Vamos recorrer das acusações e do valor da fiança porque o general não tem US$23 mil, pois seu dinheiro foi bloqueado ¿ disse o advogado de defesa, Pablo Rodríguez. ¿ É uma vergonha processar um homem de 90 anos e sem possibilidade de poder reconstituir os fatos e se defender.
O escândalo estourou no ano passado, quando uma investigação do Senado americano sobre lavagem de dinheiro revelou que o general tinha contas secretas no banco Riggs. Os tribunais chilenos descobriram depois mais de cem contas em vários países sob diferentes nomes.
¿ Para nós, o dinheiro é ilícito ¿ disse Carmen Hertz, advogada de acusação.
O indiciamento foi comemorado por parentes das vítimas. A escritora Patricia Verdugo, cujo pai foi assassinado, disse que era ¿um dos dias mais felizes¿ de sua vida. Divididos nos palanques, os candidatos às eleições presidenciais de 11 de dezembro mostraram posições parecidas. O candidato de direita Joaquín Lavín, da União Democrata Independente, disse lamentar que Pinochet tenha que ¿passar por isto na sua idade, mas (ele) é igual a qualquer chileno¿. A socialista Michelle Bachelet, candidata do governo, disse que este foi ¿um sinal claro de que ninguém está acima da lei¿.
¿ A questão da honestidade tem a ver com a honra militar e creio que isso deve ser muito duro para aqueles que acreditaram nele ¿ disse Bachelet, ex-ministra da Defesa.
COM ¿EL MERCURIO¿, do Grupo de Diários América