Título: `Mensalão virou refrão de música de carnaval¿
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Fonte: O Globo, 25/11/2005, O País, p. 13

Em entrevista a rádios, Lula compara Palocci a Ronaldinho Gaúcho e diz que país vive `intranqüilidade política¿

BRASÍLIA. Na entrevista a quatro emissoras de rádio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comparou o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, a Ronaldinho Gaúcho. Lula disse que mexer em Palocci seria como tirar o craque do Barcelona. Disse ainda que o país vive um momento ¿de intranqüilidade política¿ e repetiu que o mensalão não foi provado na Câmara. Irônico, disse que mensalão virou ¿refrão de música de carnaval¿.

Lula chamou de ¿acidente de percurso¿ a morte do prefeito de Santo André Celso Daniel, em 2002, e afirmou estar certo de que se trata de crime comum. Ao falar das eleições de 2006, Lula disse que seus adversários é que precisam assumir agora se são candidatos. Sobre a pesquisa que apontou queda de sua popularidade, disse que ninguém resiste a um bombardeio.

Os principais pontos da entrevista dada às rádios Globo e Super Rádio Tupi, do Rio, Capital e Tupi de São Paulo:

PALOCCI: Por que eu iria mexer no Palocci? Mexer no Palocci é a mesma coisa que pedir para o Barcelona tirar o Ronaldinho. Deixa ele jogando, ele está bem. De vez em quando, o Ronaldinho perde um gol, de vez em quando o Palocci pode dizer alguma coisa que alguém não goste, mas isso faz parte da vida. No geral, as coisas estão indo muito bem. Palocci continua no governo, é uma figura extremamente importante neste momento político e econômico. E ele foi convidado por mim, continuará por mim e será o meu ministro da Fazenda. Isso não tem discussão, não tem especulação. Quem quiser especular, vá para a Bolsa de Valores.

PALOCCI 2: O Palocci é um homem de uma competência acima da média das pessoas que já passaram pela Fazenda, no Brasil, com a vantagem de que não é um economista. Ele é um homem calculista. Você nunca ouviu o Palocci levantar a voz. É incapaz de dizer que vai fazer uma coisa que não pode fazer. E ele passa tranqüilidade (...) para os investidores.

PALOCCI/DILMA: Veja, não é que a Dilma dá cacetada. Eu não posso cercear as pessoas de terem divergências. De vez em quando fico chateado (...) Gostaria que eles debatessem entre eles e só fosse para a imprensa o resultado final, que é isso que interessa ao povo brasileiro. Você pode querer um pouco mais ou um pouco menos, mas há 20 anos a gente não tinha a tranqüilidade na economia que temos hoje.

MENSALÃO/CARNAVAL: Estamos vivendo um momento excepcional, eu diria, do ponto de vista da intranqüilidade na política brasileira. Porque se colocou na cabeça do povo brasileiro, ao longo de vários meses, que tinha mensalão, que tinha mensalão, que tinha mensalão. Isso virou refrão de música de carnaval, isso está no inconsciente da sociedade brasileira. E agora a CPI terminou o trabalho sem provar se houve mensalão.

MENSALÃO/ELEIÇÕES: No Brasil, muitas das coisas que estão acontecendo é porque já começaram as eleições. Então, as pessoas, antes de provarem alguma coisa, fazem um carnaval (...), depois não provam nada, fica o dito pelo não dito. Quem é de São Paulo vai se lembrar de uma coisa: a Escola Base. Destruíram o dono da Escola Base e, depois de algum tempo, não tinha nada. Quero prestar contas à sociedade brasileira de cada coisa que acontecer. A única coisa que não posso admitir é que as mentiras prevaleçam sobre a verdade. Sou daqueles que querem apurar a verdade, doa a quem doer. Mas não posso enforcar para depois julgar.

CELSO DANIEL e MINISTÉRIO PÚBLICO: Tenho a convicção de que a morte do Celso Daniel foi um acidente de percurso. E foi um crime comum. Não acredito em crime político, em hipótese alguma. Acho que o assaltaram, seqüestraram, depois perceberam, como se diz na gíria policial, "o tamanho do peixe" e resolveram matar de forma irresponsável e por medo. Lamentavelmente, uma parte do Ministério Público de São Paulo, toda vez que vai chegando a eleição, levanta esse caso. É preciso ter mais seriedade. Que investiguem o quanto quiserem. Se amanhã descobrir que não foi crime comum, ora, todos nós vamos mudar a nossa versão, mas o que tenho agora é o resultado final do trabalho da Polícia Civil e da Polícia Federal. O resto é insinuação.

REELEIÇÃO 1: Cometi um erro aquele dia.Não tinha entendido que eu tinha falado que era candidato. Não tenho que decidir agora se eu sou candidato ou não. Quem tem que decidir são os meus adversários, que estão dando trombada aí, xingando e ficando nervosos. No momento certo, vou dizer "sou ou não sou". Isso não mexe com a minha cabeça, não me preocupo, não durmo e acordo pensando nisso.

REELEIÇÃO 2: O problema do Brasil é que cada um quer inventar o ovo de Colombo. Cada um que entra acha que tem um coelho na cartola, que vai ser a maior novidade do mundo. Se a gente trabalhar de forma combinada, tudo será mais fácil. É isso que espero deixar para o próximo presidente.

POPULARIDADE/IMPRENSA: Houve uma pesquisa ontem que eu ainda não vi, e o presidente caiu um pouco mais. Mas que presidente resistiria ao bombardeio que estou sofrendo desde junho? Estou dizendo isso para mostrar que houve momentos, nestes últimos tempos, em que notícia boa não era publicada. Há uma predominância, eu não sei por que, de vender coisas negativas.

PESADELO: (O senhor tem pesadelo? Sonha com Marcos Valério ou Delúbio Soares?) Não tenho pesadelo. Quando encosto a cabeça no travesseiro, durmo tranqüilo. Tenho muito mais razões para sonhar coisas boas do que para ter pesadelo.

EMPREGOS: Em 35 meses, criamos 3,6 milhões de empregos. É a maior quantidade de empregos criados no país nos últimos 25 anos.