Título: FURLAN: COMPRA DE DÓLAR É INSUFICIENTE
Autor: Mariza Louven
Fonte: O Globo, 25/11/2005, Economia, p. 29
Ministro diz que leilões do BC não reduzem excesso de oferta da moeda
As compras de dólares por parte do Banco Central (BC) não são suficientes para interromper o ritmo de desvalorização do dólar frente ao real, causada pelo forte ingresso de moeda no país, sobretudo das exportações e de investidores estrangeiros. A avaliação foi feita ontem pelo ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, durante o 25º Encontro Nacional de Comércio Exterior (Enaex). Oficialmente, o BC afirma que os leilões de compra de dólares têm o objetivo de compor reservas ¿ e não elevar as cotações.
¿ Precisamos de um conjunto de fatores para dar solução para o câmbio. Já foi comprovado que a compra de reservas não está produzindo e não tem tido resultado ¿ disse Furlan.
O ministro lembrou que o BC não obteve os resultados esperados nas duas vezes em que fez um grande esforço nesse sentido, adquirindo US$10 bilhões, no ano passado, e US$5 bilhões este ano. Para Furlan, a solução seria adotar um conjunto de medidas de simplificação cambial que inclua a autorização para exportadores abrirem contas correntes em dólar no Brasil. Mas as alterações, acrescentou, dependem de aprovação do Congresso, dificultada pelo calendário eleitoral:
¿ Como o Brasil está gerando mais de US$40 bilhões de superávit este ano e em 2006 também deverá passar de US$30 bilhões, há uma situação quase irreversível de excesso de oferta de dólares.
Segundo ele, a apreciação cambial está provocando perda do dinamismo exportador, com queda na produção ¿ responsável pela geração de empregos no país ¿ de alguns setores, como o de calçados. Em setembro, foram exportados menos três milhões de pares e, em outubro, quatro milhões.
Gianetti: exportadores dão tiro no pé com ACCs
Por causa da valorização do real, o crescimento das exportações, em 2006, deve ser apenas 2,5% superior, passando de US$117 bilhões este ano para cerca de US$120 bilhões. Furlan citou que os importadores estão realizando operações com até um ano de prazo, sem hedge (proteção contra a variação cambial). Por outro lado, os exportadores estão antecipando contratos de câmbio para levantar recursos para capital de giro. São os chamados ACCs, nos quais os exportadores recebem uma antecipação em moeda nacional no ato da contratação do câmbio pelo qual receberá pelas vendas, sempre no momento que precede o embarque. Furlan disse que isso está acontecendo porque os empresários têm dificuldade de obter financiamentos no mercado interno, devido às altas taxas de juros.
Essa antecipação eleva fortemente a oferta de dólares, conforme alertou ontem, no mesmo seminário, o presidente da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex), Roberto Gianetti. Mas ele explicou que os exportadores lançam mão do recurso porque o ACC tem custos baixos e aplicam no mercado financeiro a taxas de 19% a 20% ao ano.
¿ Para o exportador passou a ser uma espécie de medida compensatória para o câmbio sobrevalorizado. Só que isso é um tiro no pé, porque ele contribui para derrubar o dólar. Tem uma empresa que vendeu três anos de câmbio futuro, ou seja, esse dinheiro entrou hoje aumentando a oferta de dólares no país, derrubando a taxa atual ¿ disse Gianetti.
Bolsa atinge novo recorde histórico
Ontem o dólar encerrou os negócios praticamente estável, a R$2,243 (0,04%), influenciado por um novo leilão de compra de moeda do BC e pelo feriado de Ação de Graças nos Estados Unidos, que reduziu drasticamente o volume de negócios. As operações de ontem movimentaram menos de US$1 bilhão, cerca de 50% a menos que num dia normal de negócios. O BC comprou dólares a R$2,236 no mercado à vista e, num dia de poucas operações, conseguiu elevar as cotações para próximo da máxima do dia, de R$2,244. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) também ficou próxima da estabilidade, sem a forte presença dos investidores estrangeiros: subiu 0,01%, para 31.944 pontos, novo recorde histórico ¿ apenas dois pontos acima do recorde anterior.
COLABORARAM Patricia Eloy e Ramona Ordoñez