Título: Ministério Público investiga suposto desvio de R$1 bi em Ribeirão Preto
Autor: Ricardo Galhardo e Soraya Aggege
Fonte: O Globo, 27/11/2005, O País, p. 4
Ministro atribui as acusações a manipulações políticas pré-eleitorais
RIBEIRÃO PRETO. Com investigações sobre pelo menos dez ex-assessores do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, o Ministério Público do estado pretende indiciar três deles nos próximos dias por formação de quadrilha e fraudes na prefeitura de Ribeirão Preto durante a gestão de Palocci (2001 a 2002). Também investiga o suposto enriquecimento ilícito de integrantes do grupo de ex-assessores do ministro durante toda a administração petista (2001 a 2004), período em que teria havido desvio de verbas e irregularidades em contratos num valor que pode chegar a R$1 bilhão.
Ex-assessores do ministro Palocci trocaram velhos Fuscas e casas populares por carrões e palacetes. Segundo o promotor Aroldo Costa Filho, do Grupo de Atuação Especial Regional de Prevenção e Repressão ao Crime Organizado (Gaerco), há suspeitas de que além do desvio de dinheiro, alguns tenham se beneficiado com obras e apartamentos em troca de favorecimentos em licitações.
¿ Estamos verificando também os patrimônios, pois a maioria chegou a Ribeirão Preto pobre e hoje ostenta sinais de riqueza ¿ diz o promotor.
O montante de verbas que teriam sido desviadas na prefeitura ainda não foi calculado. Mesmo sem levantamentos oficiais, o MP arrisca dizer que teriam passado pelo esquema, em superfaturamentos de obras e serviços, cerca de R$400 milhões em quatro anos do governo petista, além de R$600 milhões em acordos feitos ¿por fora¿. O delegado seccional Benedito Antonio Valencise, que investiga o caso, não fala em números:
¿ Na verdade, não temos dados fechados ainda.
Esta semana, o delegado e o MP começam a ouvir ex-assessores, como Isabel Bordini, ex-superintendente do Daerp e acusada de obrigar funcionários a forjar documentos, Juscelino Antonio Dourado, ex-chefe de gabinete do ministro e Donizeti Rosa, ex-secretário de governo. Também devem ser ouvidos Nelson Colela, ex-secretário do segundo período da gestão petista e o ex-prefeito Gilberto Maggioni, vice de Palocci.
Grupo de Palocci sonhava transformar o país
Os ex-assessores do ministro foram procurados pelo GLOBO mas não receberam os repórteres. Amigos e antigos conhecidos do grupo dizem que quase todos foram forjados no velho ideário petista e sonhavam transformar o país. No entanto, no fim da primeira gestão de Palocci na cidade, entre 1993 e 1996, passaram a se preocupar mais com o conforto pessoal.
No lugar da ideologia, ¿ficou o vazio¿, segundo o ex-assessor que se tornou o maior pivô da crise na Fazenda, Rogério Buratti. Ele foi indiciado em agosto, no inquérito sobre fraudes no sistema de limpeza urbana, por formação de quadrilha e sonegação. No mesmo dia, foi preso por outro inquérito, acusado de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, além de tentativa de destruição de documentos sobre a compra de fazendas e duas empresas de ônibus.
Ao MP, Buratti disse que havia na prefeitura de Ribeirão Preto um esquema de pagamento de propinas mensais de R$50 mil da empreiteira Leão Ambiental, da qual o advogado foi diretor de 2001 a 2002. O dinheiro seria repassado por Palocci para o caixa do PT, administrado por Delúbio Soares.
¿ Este governo está muito longe do PT. Começaram a ficar no PT, na verdade, apenas os grupos dos bandidos, dos inteligentes, dos inocentes... ¿ desabafou Buratti.
Juscelino Dourado, que corre risco de ser indiciado, também foi um militante convicto do PT. Sua relação de bens destoa de seus ganhos, segundo o MP. Como secretário de Palocci, ganhava R$5 mil em Ribeirão. Foi assessorá-lo em Brasília e passou a ganhar R$11 mil. Dourado foi chefe de gabinete, presidente do Conselho de Administração do Serpro e membro do Conselho de Administração da Caixa Vida Previdência, como representante da Fazenda.
À CPI dos Bingos, Juscelino contou que comprou em 2004 um terreno no condomínio Buritis, por R$80 mil. O valor de mercado do imóvel, no entanto, é aproximadamente R$250 mil. A mansão que ele constrói na área tem cerca de 350 m2, que ele orçou em R$320 mil. A mulher, Flávia, é professora e tem renda de R$2,7 mil por mês.
Em depoimento recente a comissões da Câmara e do Senado, o ministro Palocci negou irregularidades na administração em Ribeirão Preto, dizendo que as acusações de fraudes não eram verdadeiras e que elas surgiam sempre nos períodos pré-eleitorais, com clara manipulação política.
¿ Da primeira vez que eu fui prefeito, passaram quatro anos fazendo devassa nas minhas contas e não acharam nada. O povo de Ribeirão entendeu isso e eu fui eleito novamente em 2000 no primeiro turno. Agora, meus adversários e o MP estão fazendo a mesma coisa ¿ disse Palocci no depoimento que prestou na semana passada à CPI.
COLABOROU Jucimara Pauda