Título: RENDA ESTÁVEL E MENOS DESIGUAL
Autor: Luciana Rodrigues e Flávia Oliveira
Fonte: O Globo, 26/11/2005, Economia, p. 35

Mais 2,7 milhões de empregos fizeram rendimento médio parar de cair em 2004

Ovigor da economia em 2004 levou à criação de 2,7 milhões de postos de trabalho, fez crescer o emprego formal no país e, pela primeira vez desde 1997, garantiu ao menos estabilidade na renda dos trabalhadores. Na mais completa pesquisa anual sobre as condições de vida dos brasileiros, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou que, no ano passado, houve uma forte redução da desigualdade de renda entre os trabalhadores, já que os mais pobres viram seus ganhos crescerem.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad 2004), divulgada ontem, constatou que a taxa média de desemprego no país caiu de 9,7% em 2003 para 9% em 2004, a menor em seis anos. E o Índice de Gini, que mede o grau de desigualdade de renda, recuou de 0,554 para 0,547 entre os trabalhadores com rendimento.

Em cada cem brasileiros em idade ativa, 56 estavam trabalhando, o maior nível de ocupação em uma década. Os analistas afirmam que, graças à expansão de 4,9% da economia no ano passado, o Brasil mostrou qu.e é capaz de gerar postos de trabalho de boa qualidade.

¿ É um quadro bem diferente da recuperação ocorrida após o Plano Real, em 1995 e 1996, quando cresceu o trabalho informal e precário. ¿ diz o economista Claudio Dedecca, da Unicamp ¿ Mas uma expansão econômica dessa magnitude, inferior a 5%, impõe um dilema entre emprego e renda ¿ completa.

A renda média do trabalhador brasileiro em 2004 foi de R$730. A partir do ano passado, o IBGE passou a investigar também os domicílios das áreas rurais do Norte, antes ausente da Pnad. Foram entrevistados, em todo o país, 140 mil moradias, para traçar um quadro dos 51,8 milhões de domicílios brasileiros. Para efeitos de comparação com anos anteriores, o instituto excluiu os dados do Norte rural ¿ com isso, a renda do trabalho ficou em R$733, exatamente a mesmo de 2003.

Foi a primeira vez que não houve queda na renda desde 1997. E os rendimentos só ficaram estagnados porque a fatia mais rica dos trabalhadores teve perda ¿ a renda dos mais pobres, por sua vez, subiu.

¿ O ideal seria que todos ganhassem. Se a economia teve expansão de 4,9% e o rendimento do trabalho não aumentou, isso significa que a renda cresceu em outro lugar (no setor financeiro ou entre as empresas) ¿ afirma João Saboia, diretor do Instituto de Economia da UFRJ.

Para Dedecca, a alta na renda dos mais pobres é reflexo direto do aumento do salário-mínimo.

Das vagas criadas, 60% foram formais

O emprego com carteira assinada cresceu 6,6%, na maior taxa entre as diferentes categorias. Na indústria, as vagas formais tiveram alta de 11,6%. A Maquesonda, fabricante de máquinas para o setor de mineração, confirma a a pesquisa. Desde o início de 2004 ¿ em razão da expansão mundial do segmento e seu conseqüente impacto nas exportações ¿ o quadro de funcionários dobrou: de 70 para 138.

O engenheiro mecânico Valério Carsaniga, de 57 anos, e Nelson José Ferreira e Silva, de 53, foram dois dos contratados. Carsaniga ficou três meses desempregado antes de assumir a gerência industrial da Maquesonda, em 2004. Silva ficou oito meses parado, depois de ser demitido da empresa onde trabalhava havia nove anos. Ambos festejam a vaga com carteira. Só lamentam a perda de renda. Carsaniga tem o mesmo salário nominal há dez anos. Silva viu sua remuneração cair de R$1.300 para R$971 de um emprego para o outro.

Ao todo, em dois anos de governo Lula, foram criados 3,7 milhões de postos de trabalho. A expansão de 2004 foi mais do que o dobro do 1,2 milhão de 2003 e só não superou os 2,9 milhões de 2002. Entretanto, naquele ano, mais de 60% das vagas foram no trabalho sem remuneração (14%), autônomo (20%) e sem carteira assinada (27%). Em 2004, 60% dos postos criados foram de empregos com carteira assinada.

A formalização aparece ainda em outros indicadores. Em 2004, quase metade dos trabalhadores brasileiros (47,3%) contribuíam para o instituto de previdência e 18% eram sindicalizados, ambos os maiores patamares desde 1992. Apenas no serviço doméstico a informalidade cresceu.

¿ Isso espelha um empobrecimento das classes de renda mais alta e também um ranço da senzala. Quem gosta de ter seus direitos respeitados deveria agir da mesma forma ao contratar uma doméstica ¿ diz Hildete Pereira de Melo, economista da UFF.

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, admitiu que será difícil cumprir a promessa de criar dez milhões de empregos no governo Lula.

COLABOROU Aguinaldo Novo