Título: REPENSAR TUDO
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Fonte: O Globo, 28/11/2005, Opinião, p. 6
No Rio de Janeiro, a questão das favelas tem sido objeto de acirrado debate, chegando a configurar dois partidos, o da remoção e o da urbanização. A opção pela remoção foi identificada com o ideal de cidade burguesa, na qual a diferença entre as classes devia se traduzir em uma ordenação socioespacial que mantivesse o pobre na periferia. Tal concepção animou um esforço de remoção de favelas, sobretudo daquelas localizadas na Zona Sul da cidade, com a transplantação de seus moradores para conjuntos habitacionais na Zona Oeste. Mas a resistência dos próprios moradores de favelas e de parte da cidade acompanhou todo o processo de remoção; e disso resultou um consenso anti-remocionista, que será cristalizado em políticas públicas como a de saneamento e de instalação de rede de água potável nas favelas, e sobretudo na maior política de urbanização de favelas, o Programa Favela-Bairro.
Desde o final dos anos 90, contudo, a aposta na urbanização começa a ser questionada. Os efeitos positivos esperados da integração entre as favelas e a cidade foram suplantados pela presença de gangues e de facções de traficantes no interior de parte significativa das favelas. Além disso, as favelas beneficiadas por intervenções urbanizadoras não pararam de crescer, abrigando a esta altura um superaquecido mercado imobiliário. A ênfase estrita na urbanização, desacompanhada de uma política habitacional e de uma efetiva incorporação dos moradores das favelas aos direitos citadinos, tende a colocar os moradores dos bairros em posição de antagonismo em face dos moradores das favelas.
Do que a cidade precisa é de se reunir em torno do direito à habitação, ao invés de se tornar refém de um debate anacrônico entre urbanização e remoção.
MARCELO BAUMANN BURGOS é professor de sociologia na PUC-Rio.