Título: MAIOR ABRIGO DO ESTADO TAMBÉM PEDE SOCORRO
Autor: Ruben Berta
Fonte: O Globo, 29/11/2005, Rio, p. 19
Instituição que abrigou grávida de rua acompanhada pelo GLOBO está sem pessoal, mantimentos e remédios
Quase cinco meses depois do nascimento de seu segundo filho, Maiara Vasconcelos Ferreira, de 18 anos, agora depende das finanças do governo estadual para continuar a sonhar. A jovem, que teve a sua história contada em julho deste ano no caderno especial do GLOBO ¿A Dinastia das Ruas¿, há pouco mais de um mês trocou a rua pelo Centro de Acolhimento de Benfica (CAB). Mas, no maior abrigo do estado, os funcionários não recebem há cinco meses; todos os cursos, com exceção do de teatro, estão parados há um mês; e faltam mantimentos e remédios. A promessa da Secretaria estadual de Ação Social é de regularizar a situação em duas semanas.
O CAB foi criado em 2000 pela então secretária de Ação Social, e atual governadora, Rosinha Garotinho. Atualmente, há 367 pessoas sendo atendidas no prédio da antiga Companhia de Transportes Coletivos (CTC), ao lado da estação de metrô de Triagem. Desde 2003, a unidade é administrada pelo estado em parceria com a ONG Prosol (Organização Produção Solidária), que implantou no espaço o projeto Reconstruindo a Cidadania, mas sofre com a crise financeira.
¿ Atualmente, estamos com cerca de 60% do total de funcionários. Muitos estavam trabalhando praticamente como voluntários, já que não recebem nem o vale-transporte, mas chega uma hora em que eles não conseguem mais vir. De qualquer forma, confiamos que a situação vá se regularizar em breve ¿ disse o diretor-técnico do projeto, Ricardo Sant'Anna Reis.
Crise levou à dispensa de 44 pessoas
Com cinco meses de repasses atrasados, a ONG teve de dispensar, no início deste mês, 44 pessoas que viviam no CAB. Foram escolhidos os homens solteiros que estavam há mais tempo na instituição. Quinze deles, no entanto, retornaram por ordem judicial.
A falta de verbas vem comprometendo todo o trabalho de reinserção na sociedade feito pela instituição. Os cursos, como os de culinária, garçom, cabeleireiro e auxiliar de serviços gerais, estão parados há pelo menos um mês. Atividades voltadas para as crianças ¿ há mais de cem abrigadas ¿ também estão restritas: a capoeira foi suspensa e os passeios para atividades educativas estão cortados porque não há verba para pôr combustível nos carros.
Entre quem luta para conseguir de novo um lugar na sociedade, a crise chega como um banho de água fria. Ex-presidiário, Cosme Gomes, de 32 anos, ainda conseguiu participar dos cursos de culinária. Chegou a ser contratado para trabalhar por dois meses na cozinha do próprio CAB. A espera de Gomes pelos dois meses de salário já dura outros três:
¿ Quando cheguei aqui, a promessa que me deram era de cidadania.
No último sábado, a situação se tornou tão crítica que bombeiros foram chamados para substituir funcionários. Mas, por pouco, não houve uma tragédia. Um incêndio atingiu o quarto andar, e controlá-lo foi difícil porque os extintores de incêndio estavam vencidos.
A situação da alimentação só começou a ser regularizada ontem, depois de um longo período em que o almoço não passou de arroz, feijão e um acompanhamento que variava entre uma salsicha ou um hambúrguer. A comida foi o principal motivo de reclamação para Maiara, com o filho pequeno de quase 5 meses e o mais velho, com 3 anos:
¿ Houve dias em que só tinha pão puro. Tínhamos que sair para vender balas na rua para conseguirmos algo mais.
De acordo com Ricardo Reis, diretor-técnico do projeto, cerca de 80% das pessoas que estão no abrigo tiveram problemas com álcool e drogas. Após a crise, a equipe multidisciplinar de apoio, formada por assistentes sociais, psicólogas e médicos, acabou desfalcada. Outro agravante é a falta de medicamentos.
A crise também diminuiu a esperança de dona Marília Fernandes, de 61 anos, que está no abrigo há três meses com a filha Mônica Mendes, de 26 anos, e seis netos. Sergipanas, elas vieram para o Rio atrás do marido de Mônica, mas agora só querem voltar para a terra natal.
¿ Aqui é muito ruim. Na casa em que meu marido está, não tem espaço para a gente e pelo menos em Aracaju tínhamos um barraco. Mas conseguimos quatro passagens com um deputado e viemos. Foi uma decepção ¿ contou Mônica.
Cai média diária de gastos com acolhimento
A Secretaria de Ação Social informou que ontem foi publicada em Diário Oficial a liberação de R$2,9 milhões para o CAB e que houve problemas no repasse por causa de falhas na prestação de contas da ONG. Mas, para o deputado Alessandro Molon (PT), a publicação não é garantia de que as verbas chegarão. Dados levantados pelo deputado mostram que a média diária de gastos com acolhimento de população de rua do estado, já descontada a inflação, caiu de R$21.763 em 2004 para R$14.309 de janeiro a outubro de 2005:
¿ É uma prova de que o estado não está dando a atenção devida a esta questão ¿ afirma o deputado.