Título: KIRCHNER USA REFORMA PARA DEMITIR LAVAGNA
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 29/11/2005, Economia, p. 27
Felisa Miceli, presidente de banco estatal, é nomeada para a pasta da Economia. Decisão desagradou a investidores
BUENOS AIRES. Numa clara demonstração de poder, o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, aproveitou ontem o anúncio sobre uma ampla reforma de gabinete para demitir o ministro da Economia, Roberto Lavagna, provocando um clima de tensão no país. A nova ministra, a economista Felisa Miceli, atual presidente do estatal Banco de La Nación Argentina, não foi bem recebida pelos investidores argentinos e estrangeiros, que esperavam um sucessor de prestígio para Lavagna, no cargo desde abril de 2002. Miceli, a primeira mulher no comando da economia do país, é considerada uma economista obediente e uma fiel colaboradora de Kirchner, que, com a saída de Lavagna, concentra mais o poder.
A Bolsa de Valores de Buenos Aires caiu 4,5%, os bônus argentinos recuaram, em média, 2%, e o dólar fechou em alta de 1%, a 3,02 pesos.
¿ O problema não é tanto a saída de Lavagna, o que mais preocupa é a nomeação de Miceli. O mercado estava esperando um nome de peso ¿ afirmou o analista Rafael Ber, da Argentine Research.
¿ Kirchner está agindo como um típico peronista: nomeou uma colaboradora medíocre e fiel ¿ comentou o economista de um importante banco estrangeiro.
Empresários esperam continuidade na economia
Entre os empresários locais, predominou a cautela.
¿ A dupla Kirchner-Lavagna sempre funcionou muito bem, esperamos que o rumo econômico seja mantido ¿ disse Luis Betnaza, diretor de Relações Institucionais da siderúrgica Techint.
Desde que Kirchner chegou ao poder, em maio de 2003, seu relacionamento com Lavagna teve várias crises. O ex-ministro nunca concordou com os ataques do presidente ao setor privado e aos organismos internacionais. A dificuldade do governo em conter a inflação, que este ano deve superar 11%, foi um dos principais motivos da nova crise. Semana passada, Kirchner acusou grandes redes de supermercados de formarem cartéis para reajustar preços. Lavagna afirmou que a inflação ¿é um dos principais desafios do governo¿, mas evitou acusações ao setor privado. Paralelamente, ele denunciou superfaturamentos em licitações do governo, o que atingiu o ministro do Planejamento, Julio De Vido, braço direito de Kirchner.
Lavagna diz que colocou cargo à disposição
Ontem, ao confirmar sua saída, Lavagna tentou evitar atritos com o governo.
¿ Hoje (ontem) de manhã, o presidente apontou que devia começar uma nova etapa e, conseqüentemente, era lógico que eu colocasse meu cargo à disposição ¿ explicou Lavagna, que terminou dizendo ¿Viva a Argentina¿.
A reunião entre Kirchner e Lavagna durou apenas 15 minutos. Logo depois, o chefe de gabinete, Alberto Fernández, anunciou a troca nas pastas de Defesa, Desenvolvimento Social, Relações Exteriores e Economia. Tentando minimizar o impacto da notícia, o governo tratou a saída de Lavagna como parte de uma reforma já esperada, pois vários ministros, eleitos para o Congresso em outubro, têm de assumir no próximo dia 10.