Título: FARRA DO CRÉDITO NOS ALIMENTOS
Autor: Fabiana Ribeiro
Fonte: O Globo, 30/11/2005, Economia, p. 25

Venda fraca perto do Natal e dívida de clientes fazem supermercados parcelar em até 4 vezes

De um lado, consumidores endividados. Do outro, vendas fracas a menos de um mês do Natal. O cenário fez com que supermercados recorressem ao crédito na hora de estimular a compra de alimentos. Com isso, há redes que aceitam o primeiro pagamento apenas em fevereiro. Para o consumidor, trata-se de um alívio no bolso. Um alívio que, no entanto, exige cautela: um novo crédito na praça, dizem especialistas, pode aumentar o grau de endividamento do consumidor e rechear o ano de 2006 com mais dívidas.

Até 31 de dezembro, o Pão de Açúcar, por exemplo, aceita pagamento em até três parcelas no cartão de crédito. Sem entrada. Já no Extra, é possível pagar produtos da cesta de Natal em quatro meses, no cartão do próprio supermercado. E nas Sendas, até 6 de janeiro o consumidor tem como parcelar as compras em até três vezes. A rede também aceita cheque pré-datado: na primeira quinzena de dezembro, cheque para 30 ou 60 dias (com juros); na segunda, para 30 dias (sem juros) e 60 dias (com juros).

- Nesta época, as pessoas têm gastos maiores: a ceia traz produtos mais caros, além dos presentes. Em janeiro, há gastos típicos como impostos e compras escolares. Então, não é por falta de dinheiro que as pessoas vão deixar de comprar - disse Omar Ferreira, diretor do Pão de Açúcar, que espera aumento de 20% nas vendas sobre dezembro de 2004.

Mais pobres: 26,5% já parcelam comida

Na Rede Economia, que reúne 18 supermercados do Rio, as compras acima de R$50 podem ser parceladas em duas vezes, com cartão da empresa. Essa forma de pagamento ficará até dia 3 de janeiro.

- A estratégia é uma maneira de estimular as compras. De 5% a 10% dos clientes devem acabar usando esse parcelamento - disse João Márcio de Castro, gerente do Princesa, que faz parte da Rede Economia.

Segundo João Carlos Oliveira, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o parcelamento é uma forma tão ou mais eficaz do que preço baixo. Especialmente neste fim de ano, quando as pessoas estão com lista de itens a comprar.

- A renda do brasileiro está apertada, as pessoas estão endividadas. É preciso estímulo para as compras. A rede que ficar fora dessa tendência vai vender menos que o vizinho.

A estratégia atrai consumidores como a economista Gladys Caldas. Se sua ceia de Natal passar de R$200 - o que é bastante provável, segundo ela - não vai recusar o parcelamento do supermercado. Numa condição: nada de juros.

- Se tenho como pagar o mesmo valor em três meses, vale a pena. Ainda bem que tenho opção: há pessoas que estão tão cheias de dívidas que ficam sem escolha.

Mas o que se percebe é que o crédito tem mais influência sobre as famílias com menos renda, lembrou Claudio Felisoni, do Programa de Administração de Varejo (Provar) da Fundação Instituto de Administração (FIA). Uma pesquisa da entidade e do Canal Varejo mostrou que quanto menor a renda maior o uso de parcelamento para comprar alimentos. O estudo revela que 26,5% das pessoas com renda de até três salários-mínimos parcelam compras no supermercado. Já para quem tem renda acima de 23 salários, a proporção cai para 21%.

- Esse número no Natal tende a se ampliar, já que a pesquisa indicou ainda que 82% das pessoas costumam obter mais crédito na época do Natal. É fato: a renda cresceu pouco - disse Felisoni.

Para ele, a luz de alerta da inadimplência foi acendida:

- Crédito para comprar alimentos? Algo está errado.

E está mesmo, concorda o advogado Paulo Maximilian, do escritório Chalfin Goldberg & Vainboim. Para ele, se o consumidor não tem dinheiro para comprar comida em dezembro, pode não ter em janeiro:

- Se as pessoas precisam parcelar alimentos, imagina o restante. Isso é só mais um sinal de que a inadimplência vai estourar em algum momento. E é bom lembrar que, ao deixar de pagar o cartão, há uma taxa de 9% a 11%, ao mês. E isso pesa.

O economista João Gomes, do Instituto Fecomércio-RJ, discorda. Para ele, a estratégia dos supermercados é ação de marketing:

- É uma forma de tornar o cliente fiel. E está longe de mostrar um consumidor endividado: os números de inadimplência estão estáveis.

A exemplo do que já se vê em lojas especializadas, os supermercados alongaram ainda mais as compras a prazo nos setores que não vendem alimentos. Neste caso, no Wal-Mart, eletroeletrônicos, bicicletas, pneus e panelas podem ser pagos, até 7 de dezembro, em até 12 vezes. Sem entrada. E no Extra, produtos não-alimentícios podem ser parcelados em até 12 meses, com juros.

Nem todas as redes aderiram à onda do parcelamento. No Prezunic, por exemplo, o consumidor tem 40 dias para pagar suas compras. O Zona Sul e o Mundial também disseram não ao pagamento a prazo.

- Se meu cliente não pagar à vista, não tenho como fazer uma negociação à vista com meus fornecedores. E é isso que faz com que o Mundial tenha preço competitivo: pagamento à vista - disse Paulino Costinha, diretor do Mundial.

Alguns exemplos de compras parceladas

Supermercado Forma de pagamento Valor mínimo da parcela Itens

Pão de Açúcar Três vezes no cartão da loja (sem entrada e juros) R$10 Compras em geral

Sendasnn Três vezes no cartão Sendas (sem juros) ou em duas vezes outros cartões (com juros) R$1,99 ou R$10nn Compras em geralnn

Extra Quatro vezes no cartão (com juros) Ver na loja Só alimentos

Rede Economia Duas vezes do cartão da rede R$25 Compras em geral

Wal-Mart 12 vezes Ver na loja Eletroeletrônicos, pneus

Dias ideais para obter descontos nas lojas

Hoje é um dos melhores dias para comprar presentes de Natal. Segundo especialistas, entre os dias 25 e 5 o consumidor obtém descontos de até 15% em compras à vista. À toa? Não. Nesse período, o lojista se prepara para pagar o aluguel e o salário dos funcionários. Ou seja: precisa - e muito - vender para fazer caixa.

- Como as últimas três semanas de novembro tiveram vendas fracas, o consumidor consegue descontos. Mesmo na época de Natal - disse Gilberto Catran, diretor da Associação de Lojistas de Shopping Centers do Rio (Aloserj).

Segundo o presidente do Conselho Empresarial de Varejo da Associação Comercial do Rio (ACRJ), Daniel Plá, no fim do mês vendedores estão preocupados em bater metas. E, por isso, estão mais dispostos a conceder descontos:

- É a hora de pechinchar.

Plá acrescenta que o horário das compras também faz diferença no bolso:

- Tudo depende do humor do lojista. O ideal é pegar a loja vazia, de manhã. Outra sugestão é evitar o sábado, quando a loja está mais cheia e o lojista sente que não é preciso oferecer vantagem para aumentar a venda. (Fabiana Ribeiro)