Título: INCIDÊNCIA DE AIDS CRESCE ENTRE NEGROS E PARDOS
Autor: Evandro Éboli e Demétrio Weber
Fonte: O Globo, 01/12/2005, O País, p. 16
Ministério da Saúde fará campanha voltada a este público, já que doença, de modo geral, manteve-se estável
BRASÍLIA. O Ministério da Saúde vai iniciar uma campanha de combate à Aids voltada especialmente para os negros. O boletim epidemiológico mostra que a incidência da doença de modo geral mantém-se estável, mas está diminuindo entre os brancos e aumentando entre os negros. Os homens pretos e pardos respondiam, em 2003, por 38,5% dos casos de Aids registrados e as mulheres, por 40,6%. Em 2005, com os dados contabilizados até junho, a incidência da Aids entre os homens pretos e pardos subiu para 43,3% e entre as mulheres, para 45,2%.
O ministro da Saúde, Saraiva Felipe, e a ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial, anunciam hoje uma campanha tendo essa população como alvo. Os dois vão falar em rede nacional de rádio e TV.
Número de brasileiros ainda é considerado alto
O número de soropositivos ainda é considerado alto pelo governo. De cada cem mil brasileiros, 17,2 estão contaminados com o vírus HIV. Foram registrados nos últimos 25 anos 371.827 casos da doença no país. Saraiva Felipe ressaltou que há uma redução da epidemia entre adultos jovens, usuários de drogas injetáveis e as crianças abaixo de 5 anos ¿ infectadas pelas mães na gestação:
¿ O programa brasileiro de combate à Aids continua tendo visibilidade internacional. A expectativa era que chegássemos em 2000 a 1,2 milhões de infectados e esse número hoje é de 600 mil pessoas. É uma diferença considerável e graças a campanha que tem sido feita, sem preconceito, sem conservadorismo moral e com distribuição maciça de preservativo.
Segundo o boletim, houve uma queda da incidência da doença entre as pessoas que se dizem brancas. Em 2003, os homens brancos respondiam por 60,7% dos casos e as mulheres brancas por 58,3%. Em 2004, o percentual caiu para 56,6% entre homens brancos e para 52,8% entre mulheres. O ministro atribuiu o aumento da incidência da Aids entre os negros ao fato de eles comporem a maior parte da população pobre do país.
A mortalidade provocada pela Aids mantém-se em 6,4 óbitos por cem mil habitantes desde 1999. Em 2004, esse indicador atingiu 6,1. No caso das crianças de até 5 anos, infectadas pelas mães, houve uma queda significativa da incidência a partir de 1998, quando foram registrados 943 casos. No ano passado, foram 703. De janeiro a junho de 2005, foram registrados 221 casos. Entre os usuários de drogas injetáveis, em 2004, foi um terço menor do que era em 1998.
Hoje, o Ministério Público Federal e ONGs entram com ação civil pública contra o governo para que seja efetivado o licenciamento compulsório do remédio Kaletra, fabricado pelo laboratório americano Abbott. Na gestão do ex-ministro Humberto Costa, o governo declarou o Kaletra como medicamento de interesse público, o primeiro passo para o licenciamento compulsório ou quebra de patente.
Após Costa deixar o cargo, porém, o governo fechou acordo com o Abbott, desistindo do licenciamento compulsório em troca da redução de preço do remédio. Segundo a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), o licenciamento compulsório permitiria uma economia de cerca de US$100 milhões até 2011, o equivalente a 25% dos gastos na compra do Kaletra. Saraiva disse que a quebra não é garantia de que o governo teria condições de produzir o medicamento no país e que, nesse caso, poderia gerar um desabastecimento.