Título: Bando jogou gasolina em vítimas do atentado
Autor:
Fonte: O Globo, 01/12/2005, Rio, p. 18

Depois de atearem fogo a passageiros e ao ônibus, criminosos fugiram para morro comemorando e debochando da PM

No ataque de anteontem ao ônibus em Brás de Pina, traficantes dos morros do Quitungo e da Fé jogaram gasolina nos passageiros e atearam fogo. Encurraladas no veículo em chamas, cinco pessoas morreram ¿ entre elas uma criança de 1 ano ¿ e 14 ficaram feridas por queimaduras. Segundo relato de passageiros do ônibus da linha 350 (Passeio-Irajá), os bandidos foram cruéis a ponto de não deixar que o motorista do veículo abrisse a porta traseira para que as pessoas pudessem sair.

Depois de atear fogo, os traficantes voltaram para o Morro da Fé comemorando a barbárie. Usando radiotransmissores, os criminosos debocharam de PMs que foram para o local do atentado. As provocações foram ouvidas pelos PMs, que eram chamados de ¿azuis¿, numa referência à cor da farda usada por eles. Um policial que mora na região contou que passou a monitorar os traficantes assim que soube do crime. Ele ligou o radiotransmissor e captou as provocações. ¿Vai dar trabalho pros azuis! Tá queimando, hein¿, repetiam os marginais, que riam do crime cometido.

Para o chefe de Polícia Civil, delegado Álvaro Lins, que ontem esteve na 38ª DP (Brás de Pina) para acompanhar as investigações, o ataque dos traficantes foi um ato de terrorismo, uma barbárie praticada por bandidos da pior espécie. Designado para acompanhar as investigações, o delegado titular da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Luiz Alberto Andrade, fez coro com o chefe de polícia e disse que nunca viu em toda a sua carreira uma ação semelhante. Para ele, o crime foi uma afronta dos traficantes tanto à sociedade quanto à polícia fluminense.

Passageiros pularam janelas com o corpo em chamas

Segundo investigações, o ataque foi uma represália à morte do traficante Leonardo de Souza Ribeiro, de 22 anos, baleado em confronto com policiais do 16º BPM (Olaria) no fim da tarde de anteontem, no Quitungo. O bandido, que tinha passagens na polícia por porte ilegal de arma, lesão corporal, uso de drogas e danos, fazia parte do bando do traficante Paulo Rogério do Souza Paes, de 27 anos, o Mica, chefe do tráfico dos morros da Fé e do Quitungo. Ele seria o ¿gerente¿ do tráfico nas favelas do Guaporé e do Quitungo. De acordo com policiais, Mica teria ordenado o ataque ao veículo da linha Passeio-Irajá.

O ataque aconteceu pouco depois das 22h, na esquina das ruas Irapuá e Guaporé. De acordo com relatos de um passageiro, quatro adolescentes fizeram sinal para o ônibus. Quando o motorista parou, um jovem com idade entre 20 e 25 anos, com uma garrafa plástica nas mãos, pulou a roleta, jogou gasolina no corredor do ônibus e nos passageiros. Ao mesmo tempo, um outro bandido tirava o motorista à força do veículo.

O bandido que havia pulado a roleta voltou, enquanto o outro riscava um palito de fósforo, iniciando o incêndio. Outros criminosos ¿ segundo a testemunha eram 12, mais as quatro mulheres ¿ ficaram do lado de fora, jogando pedras nas janelas do ônibus. Houve pânico entre os passageiros, muitos desembarcaram com o corpo em chamas e saíram correndo pela rua.

Alguns conseguiram fugir pelas janelas e ainda pela porta traseira do ônibus, que foi aberta à força, com as mãos, pela passageiro Igor dos Santos Pereira.

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