Título: Tráfico caça agora chefe do atentado
Autor:
Fonte: O Globo, 02/12/2005, Rio, p. 14

Após matar 4 que incendiaram ônibus, criminosos procuram bandido do Morro da Fé

Traficantes de uma facção criminosa estão caçando o bandido conhecido como Lorde, chefe da venda de drogas no Morro da Fé, em Brás de Pina, que na noite de terça-feira teria comandado o ataque ao ônibus da linha 350 (Passeio-Irajá), que deixou cinco pessoas mortas carbonizadas e 14 feridas. Os quatro bandidos que participaram do atentado e apareceram mortos a tiros no início da madrugada de ontem, no mesmo bairro, não foram baleados no rosto para que pudessem ser reconhecidos pelas vítimas e identificados pela polícia. A informação foi passada por um traficante, por telefone, à Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE).

Pelo menos duas vítimas reconheceram, por meio de fotografias dos corpos feitas pela perícia, dois bandidos mortos. De acordo com a chefe do Setor de Investigações da DRE, inspetora Marina Maggessi, um homem ligou logo no início da madrugada de ontem para a delegacia, avisando onde estavam os corpos. Identificando-se como integrante de uma facção criminosa, ele disse que sua quadrilha não aprova atos de terrorismo.

No fim do dia, o Instituto Médico-Legal (IML) divulgou a identificação, feita pelo exame das impressões digitais, de dois dos bandidos mortos. Um deles é Bruno Monteiro Falcão, de 18 anos, que foi morto com pelo menos 20 tiros. Ele foi reconhecido por testemunhas como o criminoso que jogou gasolina no ônibus e nos passageiros. Bruno, aos 16 anos, foi autuado por porte ilegal de arma. Outro identificado ¿ mas não reconhecido pelas vítimas ¿ foi Fabiano Henrique de Brito Silva, de 25 anos, que não tinha antecedentes criminais. Passageiros também reconheceram um homem, não identificado pela polícia, de cor negra, 1,67 metro de altura, cabelos pretos, de aproximadamente 20 anos, como o bandido que agrediu o motorista do veículo. O diretor do IML, Roger Ancillotti, explicou que, após consulta aos arquivos do Instituto Félix Pacheco (IFP), foi constatado que dois dos mortos jamais tiveram uma carteira de identidade emitida no Estado do Rio.

Corpos deixados em carro tinham marcas de tortura

Assim que soube do telefonema, Marina Maggessi disse que pensou que se tratava de um trote. Em seguida, ela ligou para o chefe de Polícia Civil, delegado Álvaro Lins, que mandou checar as informações.

¿ Nunca vi uma coisa dessa. Os bandidos executaram os responsáveis pela barbárie do ônibus e ligaram para a DRE. É o respeito deles pelo trabalho da DRE ¿ enfatizou Marina.

Com base nas informações passadas pelo bandido na ligação anônima, PMs encontraram os quatro corpos, por volta de 1h, dentro do Meriva prata LTN-0402, na Rua Bento Cardoso, em frente ao número 110. Um dos corpos estava no banco de trás e os outros três no porta-malas do carro, que foi roubado de um médico no dia 9 de novembro na área da 27ª DP (Vicente de Carvalho).

Os quatro tinham marcas de tortura. No banco da frente foi deixado um cartaz com a seguinte frase: ¿Taí os quatro que queimaram o ônibus. Nós do CVRL [Comando Vermelho Rogério Lemgruber] não aceitamos atos de terrorismo. CVRL lado certo da vida errada... Fé em Deus... só falta o safado do pela-saco do Lorde¿.

Ao ser perguntado sobre a morte dos quatro bandidos e o recado dado por traficantes, o secretário de Segurança, Marcelo Itagiba, disse que vai tratar o assunto como mais quatro homicídios a serem investigados.

¿ Não acredito em represália do tráfico. Acredito no trabalho da polícia. Não podemos mais ter essa glamourização do crime e do tráfico de drogas ¿ disse Itagiba.

Ontem, após sobrevoar e também percorrer a pé o Morro da Fé, o Conjunto do Quitungo e a rua onde o ônibus foi queimado, o secretário defendeu mudanças no Código Penal. O objetivo é permitir a prisão perpétua para bandidos como os que praticaram o atentado:

¿ O Brasil precisa reformular as suas leis penais e instituir a prisão perpétua para os criminosos violentos e irrecuperáveis, como esses que atacaram civis inocentes no ônibus.