Título: PT enfrenta devassa e greve
Autor: Tatiana Farah
Fonte: O Globo, 03/12/2005, O País, p. 3

Seis meses depois do escândalo, Receita vai à sede do partido recolher documentos

Apenas seis meses depois do início do escândalo do caixa dois, o PT teve de entregar ontem sua contabilidade oficial para uma devassa da Receita Federal, que foi à sede nacional do partido em São Paulo. Os dirigentes receberam os auditores e entregaram a contabilidade de 2001. A Receita está investigando as contas de 2000 a 2004, e o próprio PT atribuiu a investigação à crise política. Para complicar ainda mais a situação do partido, os funcionários paralisaram o trabalho por estarem com os salários atrasados. É a primeira greve de funcionários em 25 anos de história do partido, que sempre apoiou greves no serviço público e no setor privado e condenava com veemência as empresas que não pagavam a seus trabalhadores.

Segundo o tesoureiro petista, Paulo Ferreira, os documentos contábeis referentes aos outros anos estão no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e serão encaminhados à Receita.

¿ Em razão dos episódios todos, a Receita decidiu por fazer uma análise das contas. Mas o procedimento deveria ser feito com os outros partidos também, por uma questão de isonomia ¿ afirmou Ferreira.

O tesoureiro disse que na terça-feira recebeu um ¿mandado de procedimento fiscal¿ da Receita, requisitando os documentos. No mandado, não há motivo determinado para a investigação, que, segundo a Receita, está sob sigilo fiscal.

Fontes da Receita informaram que a investigação é sobre as contas do PT e não sobre irregularidades cometidas por seus dirigentes, e não inclui diligências a outros partidos, nem mesmo os citados nas denúncias do mensalão.

Campanha de finanças arrecada só R$100 mil

A investigação da Receita sobre o PT começou no dia 5 de outubro. Como o PT está em greve, o tesoureiro não sabe informar se outros petistas já sabiam das diligências ou se elas corriam em sigilo na Receita.

O primeiro-vice-presidente do PT e assessor especial de Lula, Marco Aurélio Garcia, disse que recebeu com tranqüilidade a investigação:

¿ Só teme a Receita quem deve.

Segundo Paulo Ferreira, as contas pedidas são as mesmas prestadas, anualmente, ao TSE. A Receita Federal em São Paulo confirmou a operação, mas disse não poder fornecer mais detalhes porque a legislação não permite a divulgação de fatos sob investigação.

Foi uma sexta-feira negra para os dirigentes da executiva nacional petista. Abatidos com a cassação de José Dirceu, muitos dirigentes nem sabiam que a sede petista estaria praticamente fechada, já que os funcionários entraram em greve devido a atraso de salários.

Há pouco mais de um mês, o partido havia demitido 40% de seus 145 funcionários da sede nacional, encolhendo a folha de R$650 mil para R$320 mil. A economia não garantiu os salários de novembro dos atuais 79 funcionários nem o décimo terceiro salário, que ainda não foram depositados. Segundo Ferreira, só receberam os funcionários que recebem até R$1.500. Os demais receberão entre 7 e 10 de dezembro.

¿ Temos uma dívida inalcançável pelas receitas ordinárias do PT ¿ queixou-se o tesoureiro, que informou que os salários de dezembro atrasarão e não descartou uma nova reestruturação do partido em janeiro, com mais demissões.

Dos 79 funcionários do diretório nacional, ontem estavam trabalhando só 16. Os dirigentes só receberão seus salários quando os vencimentos dos funcionários estiverem em dia.

As dívidas do PT estão orçadas em cerca de R$53 milhões, sem contar os R$55 milhões do caixa dois de Marcos Valério, em despesas ¿não contabilizadas¿ pelo ex-tesoureiro Delúbio Soares. Além disso, o partido passou a manhã de ontem às voltas com uma outra dívida, de R$1,5 milhão, com a Fundação Perseu Abramo. A situação tem de ser resolvida até o fim do ano para que o PT não seja punidos, pois a Perseu Abramo é uma fundação do partido e recebe os recursos do fundo partidário.

Sem dinheiro nem para fazer seu tradicional encontro nacional, adiado de dezembro para abril de 2006, o PT não emplacou sua campanha de arrecadação de recursos, que deveria arrecadar R$13 milhões entre os militantes até 13 de dezembro. O tesoureiro disse que só revelará os dados no fim da campanha, mas há informações de que foram arrecadados só R$100 mil.

Ontem, o senador Eduardo Suplicy compareceu por dez minutos à reunião da executiva do PT para informar que vai contribuir com R$1 mil por dez meses, mas pediu que o diretório nacional avalie a proposta dos senadores de colocar toda a contabilidade do partido na internet e em tempo real. A contribuição de R$1 mil por dez meses foi pedida a todos os parlamentares e membros ligados ao governo, como Marco Aurélio, que afirmou já estar colaborando além da contribuição de praxe deduzida dos salários. Para os senadores, a dedução é de 22%.