Título: LULA COBRA EXPLICAÇÕES DE PALOCCI
Autor: Gerson Camarotti
Fonte: O Globo, 03/12/2005, Economia, p. 33
Ele teria se irritado por não ter sido informado antes sobre PIB
BRASÍLIA. O resultado negativo do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de riquezas produzidas no país), que caiu 1,2% no terceiro trimestre do ano, levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a ter uma das mais duras conversas com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O encontro ocorreu no fim da manhã da quinta-feira e atrasou a chegada de Lula à reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.
Segundo dois interlocutores próximos ao presidente, nunca Lula havia demonstrado tanta irritação com Palocci. Antes, só havia expressado irritação por causa da briga de Palocci com a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, em torno do ajuste fiscal. De acordo com os relatos, dessa vez ele teria sido enfático com o ministro. Em tom grave, chegou a avaliar duas hipóteses sobre a sua surpresa com a queda acentuada do PIB: houve erro de avaliação da equipe econômica, ou pior, houve omissão de informação.
O presidente ficou inconformado com o fato de a equipe econômica não o ter informado com antecedência da trajetória negativa acentuada do PIB. Para ele, é inconcebível que a Fazenda não soubesse a tendência do PIB de forma a detectar em julho e agosto a retração da economia. O presidente esperava que a queda ficasse um pouco abaixo de zero:
¿ Não é possível ter uma margem de erro tão grande. Omitiram informações. Não fui avisado com antecedência ¿ teria desabafado, logo depois da conversa com Palocci.
Lula estava tão irritado que demorou meia hora para participar da reunião do Conselhão, que se realizava no Planalto. No discurso que fez em seguida, aparentando mais tranqüilidade, o presidente afirmou que o recuo do PIB foi um alerta para o governo e afirmou que era preciso ver se a política monetária foi responsável, acenando com a possibilidade de ¿reparos¿ nas ações.
O ministro da Fazenda chegou cedo ao Planalto na quinta-feira. Participou do encontro de Lula com a vice-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Anne Krueger. A conversa reservada com Lula aconteceu logo depois. Palocci parece ter entendido o recado do presidente. No mesmo dia, num almoço no Rio, disse que a política monetária tinha custos e também acenou com ajustes na condução da economia.
Para um ministro petista, apesar da irritação, Lula não cogita em hipótese alguma abrir mão de Palocci e não deve mudar a condução da política econômica. Mas a expectativa no núcleo do governo é que pelo menos com esse resultado do PIB seja possível acelerar um pouco mais a queda da taxa de juros.