Título: PEDOFILIA NA IGREJA É IGNORADA PELOS ESTUDOS ACADÊMICOS
Autor: Ciça Guedes
Fonte: O Globo, 04/12/2005, O País, p. 18
Estudos sobre os casos de pedofilia na Igreja Católica no Brasil inexistem. Os poucos textos sobre o assunto foram produzidos por teólogos como o frei Antônio Moser e a professora Maria Clara Bingemer, da PUC-RJ.
A socióloga da religião Regina Soares Jurkewicz fez uma pesquisa sobre os crimes sexuais cometidos por padres contra mulheres para sua tese de doutorado em ciências da religião, que será defendida na PUC-SP. Regina estudou dois casos entre os 21 selecionados nas 200 reportagens de jornais de grande circulação das capitais entre 1994 e 2002.
Mesmo não sendo um trabalho sobre pedofilia, Regina, que trabalha na ONG Católicas pelo Direito de Decidir, constatou que a imagem dos padres envolvidos em crimes sexuais é protegida pelo discurso religioso, do ponto de vista simbólico, e pela instituição, no plano real:
¿ O componente religioso tem peso na imagem do sacerdote para as mulheres e para a sociedade. Ele é merecedor de crédito. Não se imagina que seja capaz de violência, principalmente sexual. As mulheres, quando denunciam o abuso, tornam-se culpadas em vez de vítimas. Há diferenças quando o abuso é praticado por um padre ou por um outro homem.
Para a professora Maria Clara, quando a acusação de pedofilia envolve padres, o escândalo é maior por causa da imagem idealizada:
¿ Rasgam as vestes quando é um padre, mas em todos os segmentos sociais há pedófilos. Às vezes é o pai, o professor. O que é exigido de um padre é exigido de qualquer cristão.
Nas pesquisas que fez para escrever ¿O enigma da esfinge ¿ a sexualidade¿'(Vozes), o frei Antônio Moser descobriu que o número de pedófilos representa, em geral, 1% nas diferentes categorias profissionais.