Título: NA ERA PÓS-DIRCEU
Autor: Helena Chagas
Fonte: O Globo, 05/12/2005, O País, p. 4

Depois de tudo, seria de se esperar que o PT criasse juízo. Mas a era pós-Dirceu começa com mais uma daquelas disputas explosivas e autofágicas: na falta de algo melhor para fazer no fim de semana, Marta e Mercadante, contrariando apelos do presidente, lançam candidaturas em São Paulo. Esquecem-se de que, para haver Mercadante ou Marta em 2006, antes é preciso haver Lula.

Pois é. A única sorte dos governistas é que a oposição parece ter capacidade semelhante de complicar as coisas quando elas já andam para lá de complicadas. Por isso, embora a cassação de José Dirceu seja uma espécie de divisor de águas na crise, estão próximas do zero as chances de que venham a arrefecer os ânimos e permitir, como alguns esperavam, que o governo, o Congresso e o país voltem a tocar a vida com relativa normalidade. Não há risco de melhorar, como dizia o falecido deputado Luiz Eduardo Magalhães. Os sobressaltos vão continuar na era pós-Dirceu ¿ que vai se descortinando em novas variáveis e incertezas.

1. A economia tropeçou, mas será na crise? - Há divergências. Se houve de fato contaminação da economia pelo clima de incerteza na política, vai ser difícil consertar as coisas até a eleição de 2006. E aí o principal pilar da reeleição de Lula, o bom desempenho da economia, pode ruir. Se, por outro lado, o encolhimento do PIB no trimestre for mesmo conseqüência direta de uma superdosagem nos juros e no arrocho fiscal, há tempo de reduzir a dose e o paciente se recuperar no início do ano que vem. Essa é a expectativa do Planalto.

2. Palocci volta à berlinda, mas não sai - As chamas do fogo amigo voltam a encostar no ministro e sua sustentação política fica mais difícil. É sempre mais fácil defender a ortodoxia quando as coisas estão indo bem. O próprio Lula fez cobranças a Palocci esta semana, sem falar em Dilma e companhia. Desta vez, porém, o ministro não pediu demissão. Tudo indica ter percebido que passou a hora de sair.

3. As chances de o Congresso funcionar são remotas - A emenda que derruba a verticalização obrigatória das alianças eleitorais dificilmente será aprovada amanhã, bem como outras matérias mais complexas ¿ ainda que sejam importantes para o país, como é o caso do projeto de lei que cria a Super-Receita. O ambiente entre governo e oposição está super-radicalizado e, naquele barata-voa que se instalou, praticamente nenhuma força política consegue mais reunir 308 votos de um só lado.

4. Lula tem dificuldades para montar o estado-maior da reeleição - Há cerca de dois meses o presidente vem sendo aconselhado por auxiliares a montar logo um grupo para tratar de 2006. Mas Dirceu foi abatido, Gushiken ferido, Duda está fora, Jaques Wagner é candidato na Bahia... Lula está procurando estrategista, marqueteiro e coordenador de campanha, e está difícil encontrar. Por aí já se vê o que será 2006.

5. A oposição também briga - As coisas não andam tão mais fáceis assim no outro lado. Serra é candidatíssimo. Mas Alckmin também não dá sinais de ceder a vaga. Aécio não entra na disputa já, mas secretamente torce para dar tudo errado e Lula se reeleger. Só assim sobra para ele em 2010...

6. As CPIs patinam - Não tem jeito: até agora não foi explicada a origem do dinheiro do valerioduto e, enquanto isso não ficar claro, as CPIs não vão fazer papel bonito na história. A dos Bingos, que atira para todos os lados, não consegue aprofundar investigação alguma. A dos Correios está numa briga de foice, e não só por causa da inclusão do tucano Eduardo Azeredo no relatório. As investigações parciais na área dos contratos e dos fundos de pensão também atingem gente no governo Fernando Henrique. E aí?

7. Cassação política de Dirceu não abre caminho para as demais - É um engano imaginar que, depois do rigor com Dirceu, os demais também serão cassados prontamente. Há até um raciocínio inverso: degolados Jefferson e Dirceu, os dois pesos-pesados da lista, a Casa agora acha que pode pegar mais leve com um ou outro. É a lei das compensações políticas.

8. As últimas pontes entre governo e oposição - Ainda não foram dinamitadas. De um lado, Jaques Wagner e Márcio Thomaz Bastos. De outro, José Serra ¿ a quem não interessa a deterioração do quadro.

9. Ironia das ironias: Palocci e Dirceu unidos no infortúnio - Nunca foram tão amigos. É telefonema para cá, solidariedade para lá. E não só porque um foi cassado e o outro tão bombardeado. Ambos sentiram a mão pesada do chefe ¿ cujas orelhas, aliás, devem estar ardendo.