Título: VENEZUELA VAI ÀS URNAS ELEGER NOVO CONGRESSO
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Fonte: O Globo, 05/12/2005, O Mundo, p. 22

Governo e oposição divergem sobre índices de abstenção. Boicote de partidos opositores fica em 10%

CARACAS. Partidos do governo e da oposição divergiam sobre o nível de participação dos venezuelanos nas eleições legislativas de ontem. Para os partidários do presidente Hugo Chávez, ele foi superior ao registrado nas votações anteriores, enquanto para seus adversários a abstenção foi alta. Dias antes, analistas previam que entre 40% e 70% dos venezuelanos deixariam de comparecer às urnas.

As eleições, que foram ainda marcadas por um boicote parcial da oposição, devem dar uma ampla vitória ao partido de Chávez.

¿ Podemos assegurar que a participação é superior às eleições regionais de outubro de 2004 ¿ disse William Lara, dirigente do Movimento Quinta República (MVR), de Chávez.

OEA diz que votação foi tranqüila

Já o secretário-geral do partido Ação Democrática (AD), Henry Ramos Allup, afirmou que a abstenção era alta e alertou sobre possíveis estratégias do governo para mobilizar seus eleitores. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE) havia avisado sobre a extensão do horário de votação devido às chuvas intensas.

¿ É estranho que com esta ausência de eleitores decidam estender a votação ¿ disse Allup.

Para organismos independentes, no entanto, a votação transcorreu sem incidentes e com uma participação que variou de área para área: maior nas populares, onde Chávez tem grande apoio, e escassa nas zonas de classes média e alta. Mais de 400 observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Européia (UE) acompanharam a votação.

¿ O processo foi normal e tranqüilo ¿ afirmou Rubén Perina, chefe da missão de observadores da OEA.

As pesquisas indicavam que a abstenção poderia superar os 44% das eleições legislativas de 2000 e mesmo os 47,6% de 1998. Mas o governo não se dizia preocupado com isso.

¿ Há um histórico de abstenção em cada tipo de eleição. Há países, como os Estados Unidos, em que apenas 25% participam das eleições para o Congresso ¿ alegou o vice-presidente José Vicente Rangel.

A preocupação era outra. Durante a semana, quatro partidos de oposição anunciaram a retirada de seus candidatos, acusando o CNE de favorecer o governo. Rompiam, assim, um compromisso assumido com a OEA e a UE de participarem do pleito que escolherá os 167 deputados da Assembléia Nacional, 12 representantes no Parlamento Latino-Americano e cinco no Parlamento Andino.

Governo afirma que explosão em oleoduto foi sabotagem

Mas segundo as autoridades eleitorais, o boicote foi parcial: apenas 556 dos 5.516 candidatos anularam suas candidaturas. Entre os que anunciaram a retirada estão a AD e o Copei, que se alternaram no poder entre 1958 e 1998.

O governo venezuelano disse que a retirada era uma tentativa de golpe eleitoral para pôr em dúvida a legitimidade da Assembléia Nacional e acusou os Estados Unidos de estarem por trás da suposta manobra.

Antes do anúncio da retirada da oposição, as pesquisas indicavam que os candidatos pró-governo obteriam cerca de 130 das 167 cadeiras da Assembléia Nacional. Com uma vitória ampla, poderiam aprovar reformas constitucionais, como o fim do limite de dois mandatos na reeleição presidencial.

Chávez disse ontem que estas eleições seriam o túmulo dos partidos políticos tradicionais:

¿ Esses partidos já cumpriram seu tempo e creio que chegou para eles a hora da morte. De suas cinzas surgirão novos líderes e grupos de oposição.

Ontem, o governo denunciou como sabotagem uma explosão ocorrida num oleoduto que abastece a refinaria de Amuay-Cardon, no estado de Zulia, no sábado. Três pessoas ficaram feridas. As autoridades disseram que a explosão foi causada por uma bomba artesanal.