Título: MEC importa método cubano de alfabetização
Autor: Demétrio Weber
Fonte: O Globo, 12/11/2004, O País, p. 9

O governo brasileiro decidiu usar o método cubano de alfabetização de jovens e adultos no programa Brasil Alfabetizado, provocando reação de especialistas. O Ministério da Educação (MEC) vai testar o método de Cuba em duas cidades do Piauí, a partir do ano que vem. O Brasil terá que pagar pelo material didático feito pelos cubanos.

A doutora em lingüística Lucília Helena do Carmo Garcez, consultora do MEC no Pra Ler, programa de incentivo à leitura infantil, ficou surpresa com a iniciativa. Para ela, o que de fato importa em qualquer projeto e método de alfabetização é o apoio aos professores.

¿ Métodos nós temos todos no Brasil. O próprio MEC desenvolve programas nesse sentido. Temos especialistas renomados, Paulo Freire é reconhecido internacionalmente. O que falta são condições de trabalho adequadas para os professores ¿ afirmou.

Já o representante no Brasil da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), Jorge Werthein, disse que a experiência cubana de combate ao analfabetismo é exitosa e que não existe um método único, mas vários para ensinar jovens e adultos a ler e escrever. Segundo ele, não há problema na importação de um novo método e é ¿bom que o Brasil mostre no exterior experiências como a do Bolsa Escola e o programa contra a Aids¿.

O protocolo de intenções com o governo de Cuba foi assinado anteontem pelo ministro da Educação, Tarso Genro, e faz parte da agenda de cooperação entre os dois países lançada no ano passado após a viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Havana.

Método cubano já foi aplicado em três países

O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, Ricardo Henriques, disse que o sucesso do método cubano em outros países foi o que despertou o interesse do governo brasileiro de importar o modelo. O método cubano, chamado de ¿Sim, eu posso¿, já foi aplicado com êxito na Venezuela, na Nicarágua e no Haiti. Segundo Henriques, no entanto, não há registro de uso em países de língua portuguesa.

¿ O que o método cubano tem de especial é que demonstrou muita eficiência em algumas experiências internacionais. Além disso, Cuba tem uma agenda notória de erradicação do analfabetismo ¿ disse Henriques, enfatizando que a aplicação do método cubano será monitorada e tem como objetivo ampliar o leque de opções para enfrentar o analfabetismo no Brasil.

Lançado no ano passado como prioridade na gestão do ex-ministro Cristovam Buarque, o Brasil Alfabetizado financiou o atendimento de 1,9 milhão de jovens e adultos em 2003. Este ano, serão matriculados 1,8 milhão de alunos.

O método cubano será aplicado provavelmente na periferia de Teresina e numa cidade de porte médio no interior. Os lugares serão escolhidos com o governo do Piauí.