Título: INDÚSTRIA EM MARCHA LENTA
Autor: Cássia Almeida
Fonte: O Globo, 08/12/2005, Economia, p. 29
Produção ficou estagnada em outubro. Ipea vê sinais de recuperação em novembro
Aprodução industrial parou em outubro. A ligeira alta de 0,1% na comparação com setembro não tirou a atividade industrial da tendência de queda que persiste desde o terceiro trimestre, de acordo com a Pesquisa Industrial Mensal, divulgada ontem pelo IBGE. O ritmo fraco apareceu também quando se observa o desempenho frente a outubro de 2004. A alta de 0,4% é uma das mais baixas desde fins de 2003, ano marcado pela estagnação econômica. De janeiro a outubro, a produção teve expansão de 3,4% e, nos últimos 12 meses, acumula alta de 4,1%. Segundo Isabella Nunes, gerente da pesquisa, a produção sustentou o patamar de setembro, que tinha ficado 2,3% menor na comparação com agosto:
¿ Essa estabilização não muda a trajetória de queda, principalmente no segundo semestre. Houve a combinação de dois fatores. O primeiro foi a perda de ritmo da indústria; e o segundo, a base de comparação muito alta, já que no segundo semestre do ano passado o desempenho foi excepcional.
Aftosa fez produção crescer menos
A produção de álcool e gasolina, que subiu 0,9% frente a setembro, ajudou a categoria de bens de consumo não-duráveis (combustíveis, alimentos, calçados, vestuário e remédios) a aumentar a produção em 0,5%. Mas a expansão poderia ter sido maior se não fosse a febre aftosa. A queda na produção de carne, em razão da doença que parou os frigoríficos, afetou o setor de alimentos elaborados, que responde por 45% desse segmento da indústria, de acordo com Isabella
¿ A produção só não caiu pela alta na produção de álcool e gasolina e pela estabilidade no setor de calçados e vestuário, que vinha reduzindo o ritmo ¿ explicou.
O setor de bens duráveis (automóveis e eletrodomésticos) reagiu mais fortemente em outubro. Houve alta de 2,8%, mas não o suficiente para compensar o recuo de 17,3% entre julho e setembro.
Mas os indicadores de novembro já mostram a indústria num ritmo um pouco mais forte. Tanto assim, que o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) está prevendo alta de 0,5% em novembro sobre outubro. E taxa um pouco menor, de 0,3%, contra o mesmo mês de 2004:
¿ Tudo indica que setembro foi o último mês de queda na produção. Uma espécie de transição para a retomada do crescimento. Dos três indicadores de novembro que já saíram, dois mostraram avanço ¿ disse Estêvão Kopschitz, economista do Ipea.
Os números citados pelo analista são a produção de automóveis, que aumentou 3,6% no mês passado, e a de papel ondulado, que subiu 1,1%. Só o consumo de energia elétrica caiu 0,8%. Essa recuperação viria pelo afrouxamento na política monetária, segundo Kopschitz, com a redução da taxa básica de juros, a Selic, que caiu de 19,75% em agosto para 18,5% em novembro:
¿ Contribui também a perspectiva de que os cortes vão continuar.
Alexandre Maia, economista-chefe da gestora de recursos GAP, está mais otimista. Acredita em alta de 0,8% em novembro:
¿ A indústria está com a cara melhor este mês. Mas nada indica que será um crescimento muito acelerado no fim do ano.
Setor de calçados cortou 30 mil no ano
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, considerou frágil a recuperação da indústria:
¿ Mas a reação do quarto trimestre será bem mais modesta e não compensará o tombo do terceiro.
O freio da indústria foi maior no setor de calçados. O real valorizado, facilitando as importações da China e prejudicando as vendas externas, é uma das causas apontadas pelos empresários. Este ano, 30 mil trabalhadores já forma demitidos.
A situação é mais crítica no Rio Grande do Sul. Até janeiro, devem ser dispensadas até sete mil operários, informou a Associação Comercial e Industrial de Novo Hamburgo, região que concentra o parque industrial calçadista. A Azaléia anunciou ontem o fechamento de sua fábrica de São Sebastião do Caí, no estado, com a demissão de 800 trabalhadores.
COLABORARAM Patrícia Duarte e Chico Oliveira