Título: LULA USA REUNIÃO DO MERCOSUL PARA FALAR DE DOHA
Autor: Cristiane Jungblut
Fonte: O Globo, 10/12/2005, Economia, p. 37
Presidente pede a líderes do bloco pressão sobre os países ricos para que haja redução dos subsídios agrícolas
MONTEVIDÉU. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ontem aos demais presidentes do Mercosul que façam pressão sobre os líderes dos países desenvolvidos, inclusive com telefonemas, para evitar que a próxima etapa da Rodada de Doha, que será realizada em Hong Kong na semana que vem, transforme-se num fracasso. Lula afirmou que poderá até mesmo haver o aumento do terrorismo se os países ricos não adotarem medidas como a redução dos subsídios agrícolas para permitir o acesso dos países mais pobres aos grandes mercados.
Lula introduziu a reunião de Hong Kong na 29ª Reunião de Cúpula do Mercosul. Além do discurso, por interferência direta do Brasil, foi colocado um parágrafo sobre o tema na declaração final do encontro, em que o Mercosul pede que seja acertada uma data final para o calendário de redução dos subsídios. ¿A adoção da data de 2010 para o fim dos subsídios sobre as exportações daria um impulso à fase final das negociações¿, diz o trecho.
¿ Essa decisão é tão importante que não deveria ser mais uma decisão a ser tomada pelos nossos técnicos, pelos nossos ministros. Deveria ser assumida pelos presidentes da República ¿ afirmou Lula.
Presidente pede mais pressão nas negociações
Durante a Cúpula, foram assinados acordos para projetos de integração física e energia. Com a entrada da Venezuela no Mercosul, reforçou-se a proposta de real integração dos países da América do Sul.
O presidente relatou aos colegas os contatos com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e com o primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair. E disse que entraria ainda em contato com a nova chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e com o presidente da França, Jaques Chirac. A idéia de Lula é que em janeiro seja realizado um encontro de chefes de Estado:
¿ Penso que cada um dos presidentes do Mercosul que puder (deve) pegar o telefone e ligar para um (líder) na Europa e nos Estados Unidos, para começarmos a fazer pressão.
Ao falar de pressão sobre os países ricos, Lula disse que é preciso fazê-los se sentirem responsáveis por um fracasso em Hong Kong.
O presidente também saudou a entrada da Venezuela como sócio pleno do bloco. Na prática, foi uma ¿adesão política¿ da Venezuela como quinto sócio, já que a negociação para sua entrada efetiva levará de seis meses a um ano, a partir de maio do ano que vem. A partir de agora, a Venezuela já terá direito a voz nas reuniões e decisões, mas não terá direito a voto.
Lula reconheceu que esse processo de incorporação gerou polêmicas regionais.
¿ Estamos empenhados em que essa incorporação da Venezuela se faça sem trauma e prejuízos para a rica e intensa relação desse país (Venezuela) com as demais nações do Pacto Andino ¿ explicou o presidente.
Lula acrescentou ainda que não vê saída individual para os países do Mercosul:
¿ Não há saída individual para nossos países. Quanto mais forte estiver o Uruguai, quanto mais forte estiver a Argentina, ou o Paraguai, a Venezuela, mais forte estará o Brasil, e vice-versa. Para isso, não basta caminharmos lado a lado, temos que caminhar juntos e com um mesmo destino.
Hugo Chávez, por sua vez, agradeceu a incorporação.
¿ Temos que politizar o Mercosul ¿ disse o presidente da Venezuela, numa amostra do que pretende fazer.
Lula disse que é preciso uma ¿cooperação produtiva¿ no Mercosul.
¿ A História do Mercosul é uma história de sucesso. Estamos ultrapassando as fronteiras do Mercosul e ganhando uma nova dimensão geográfica e econômica. O Mercosul é um dos projetos políticos de maior envergadura de nossa região. Temos o desafio de traduzir essa compatibilidade de agendas para o campo econômico ¿ afirmou Lula. ¿ Temos que levar o Mercosul ao povo e enraizá-lo em nossas sociedades.
Lula quer uma política industrial para o bloco
O presidente brasileiro defendeu também a necessidade de criar uma política industrial dentro do Mercosul. Para ele, há desafios de melhorar a estrutura administrativa do bloco.
¿ Ao desafio institucional, soma-se a necessidade de mostrarmos que o Mercosul é capaz de sustentar grandes iniciativas conjuntas na área da produção ¿ disse Lula, anunciando que no primeiro semestre de 2006 escolherá um projeto de integração produtiva do Brasil com cada país do Mercosul.
Já o presidente do Uruguai, Tabaré Vásquez, foi crítico sobre o futuro do bloco.
¿ O que não pode haver sobre essa mesa são indefinições ou meias definições. Porque o Mercosul não é uma jaula de ouro, nem tampouco é uma dessas instituições desportivas que se divide em categorias como VIP, honorários, maiores, menores, juvenis ou aspirantes ¿ disse Vásquez, numa crítica ao fato de a Venezuela entrar como ¿membro pleno em processo de adesão¿.
Fundo estrutural da região terá US$100 milhões
Os presidentes dos países do bloco ainda aprovaram a criação do Parlamento do Mercosul a partir de 31 de dezembro do ano que vem, e do Fundo Estrutural da região, que terá US$100 milhões até 2008 para financiar projetos de desenvolvimento nos países do bloco, principalmente as nações mais pobres. Lula afirmou que esse novo fundo do bloco será fundamental para a integração regional.
Outra medida foi a facilitação da circulação de mercadorias dentro do bloco, acabando com a dupla cobrança da TEC. E um acordo-quadro (que estabelece quais produtos terão preferência tarifária) com Israel.
www.oglobo.com.br/economia