Título: EUA mais dependentes de investidores de fora
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 12/11/2004, Economia, p. 26

Eles já haviam notado que a dívida pública dos Estados Unidos vem crescendo muito mais do que deveria. É hoje de US$ 7,3 trilhões de dólares, ou 66,9% do seu Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas produzidas no país), de US$ 10,9 trilhões. Mas, ao fazer um balanço das finanças ao longo dos primeiros quatro anos do governo George W. Bush, economistas do Departamento do Tesouro perceberam que os EUA estão cada vez mais dependentes de investidores estrangeiros.

Nada menos do que US$ 3,5 trilhões da dívida (49,8%) estão em mãos de investidores privados, na forma de títulos do Tesouro. O resto está com o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e fundos federais. E da fatia em poder do setor privado, o equivalente a US$ 1,7 trilhão está em cofres estrangeiros.

É com esse dinheiro que o governo Bush cobre os buracos do seu orçamento. Esses recursos também ajudam o Fed a manter os juros baixos e financiam a guerra no Iraque.

O que mais preocupa os conselheiros de Bush no momento é que US$ 1,1 trilhão dos títulos americanos está nos bancos centrais de China, Hong Kong, Taiwan, Cingapura e Coréia do Sul ¿ países com os quais o déficit comercial dos EUA é grande.

Segundo um funcionário do Tesouro, desde o início do governo Bush os países asiáticos vêm adquirindo cerca de US$ 500 milhões diariamente em títulos dos EUA. Com isso, eles aumentaram em 22% a sua carteira de investimentos em títulos dos EUA em relação a novembro do ano passado.

¿ Nós nos tornamos enormemente dependentes dos investidores estrangeiros para nos emprestar o dinheiro necessário para que os cheques que Tio Sam emite não sejam frios ¿ disse o economista Allan Sloan, editor de finanças da revista ¿Newsweek¿ e colunista do ¿Washington Post¿.

Teme-se que os estrangeiros, de repente, deixem de comprar os títulos americanos. Sem contar a hipótese de eles cobrarem de Tio Sam o que lhes é devido. A suspeita é que os BCs de países asiáticos poderiam fazer isso por razões estratégicas.

Brasil poderia sofrer uma pressão no câmbio

Para o economista Alex Agostini, da GRC Visão, isso pode fazer com que o Fed comece a subir os juros mais fortemente em 2005, o que levaria os investidores a migrar para os papéis dos EUA. A conseqüência para o Brasil seria alguma pressão no câmbio e a impossibilidade de inverter logo a alta da Taxa Selic, que pode bater nos 19% ao ano, antes de cair para 18%, diz Agostini.