Título: `A impossibilidade de sair de Ramallah deixava-o inquieto¿
Autor:
Fonte: O Globo, 12/11/2004, O Mundo, p. 33
Os três anos de reclusão na Muqata, seu QG em Ramallah, transformaram Arafat num homem pragmático e centralizador. Mesmo confinado, fazia questão de levantar-se cedo para saber dos acontecimentos nos territórios. Imad Shakur, homem de confiança do líder palestino e membro do comitê central da Fatah, passou boa parte dos últimos três anos a seu lado e contou ao GLOBO, por telefone, de Ramallah, que nem as limitações abalaram sua confiança na resolução do conflito.
A reclusão na Muqata influenciou a personalidade do presidente Yasser Arafat?
IMAD SHAKUR: Ele sempre foi um líder humano e muito próximo de seus colcaboradores. Arafat construía seus elos políticos com base em relações pessoais e gostava de acompanhar tudo pessoalmente. A impossibilidade de sair de Ramallah deixava-o inquieto. Isso fez com que se tornasse muito pragmático e centralizador. Dava ordens, fazia pedidos e queria ver resultados imediatos, embora nunca tenha perdido a calma.
Ele não demonstrava irritabilidade com a situação?
SHAKUR: Podíamos sentir sua tensão em alguns momentos, mas nunca vi o presidente gritar com ninguém. Arafat era um líder humano e, por isso é tão respeitado até mesmo entre seus inimigos. Ele sabia que não tinha alternativa e conformava-se, acreditava que as negociações com Israel seriam retomadas em breve. A única coisa que realmente o deixava irritado era ver na TV as declarações de representantes do governo israelense contra ele.
Como eram os dias de Arafat?
SHAKUR: Arafat acordava cedo, por volta das 6h, para rezar e receber informações sobre a situação nos territórios durante a noite. Mesmo não tendo controle direto sobre os acontecimentos, fazia questão de saber se havia atentados em Israel, mortes ou operações militares israelenses em cidades palestinas. Sempre tentando manter a serenidade, depois do almoço ele costumava retirar-se para descansar ate as 14h, quando voltava a reunir-se em seu escritório com todos os assessores e nunca ia dormir antes da meia-noite.
Por que até durante o período de reclusão Arafat fazia questão de usar uniforme militar verde e kafiah?
SHAKUR: Arafat acumulava três cargos importantes. O de presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), presidente da Organização para a Libertação da Palestina e presidente do movimento Fatah. Como presidente da ANP, acumulava também a função de chefe de Estado-Maior das Forças Armadas. Ele se dizia general e, por isso, nunca abandonou o uniforme. Dificilmente víamos o presidente vestido como um civil.
Qual a sensação de entrar na Muqata sem a presença do presidente?
SHAKUR: Sentimos Arafat próximo em todo canto. É uma pena que Israel tenha perdido a oportunidade de negociar a paz com ele. Apesar das acusações, ninguém goza do mesmo respeito de Arafat. O que poderia ser alcançado em semanas, agora deve demorar anos.