Título: Uma trajetória entre a luz e a sombra
Autor:
Fonte: O Globo, 12/11/2004, O Mundo, p. 33

Paladino da paz e terrorista, conciliador e autoritário, guerrilheiro e líder de um povo. Aos olhos do mundo, Yasser Arafat teve uma imagem muitas vezes contraditória, como resultado de uma trajetória que oscilou entre a luz e a sombra. Ele próprio expressou essa ambivalência num histórico discurso na ONU, em 1974, em que disse:

¿ Cheguei aqui trazendo um ramo de oliveira e um fuzil de revolucionário. Não deixem que o ramo de oliveira caia de minha mão.

Naquela época, o palestino que pegara em armas para combater judeus começava a ter sua liderança aceita na comunidade internacional, o que só conquistaria definitivamente em 1993, quando assinou com o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin os Acordos de Oslo. No ano seguinte, ambos ganhariam o Nobel da Paz.

Os acordos abriram caminho para um processo de paz entre palestinos e israelenses e permitiram a criação da Autoridade Nacional Palestina (ANP), embrião de um Estado palestino. Em 2000, porém, o processo se deteriorou, com o início da segunda intifada, ainda sem fim à vista.

Durante décadas, Arafat se mudou de um país para outro por pressões de israelenses e seus aliados. Refugiou-se em países como Kuwait, Jordânia, Líbano e Tunísia. Em 1994, voltou ao solo palestino pela primeira vez em 26 anos, sendo saudado com euforia por seu povo. Mas sete anos depois Israel o confinou a seu quartel-general em Ramallah, ameaçou expulsá-lo e tentou afastá-lo da liderança, o que, paradoxalmente, serviu para reforçá-la entre os palestinos, num momento em que sua autoridade estava desgastada.

Quinto filho de um comerciante palestino, Mohammad Abdel Rauf Arafat nasceu em 4 de agosto de 1929, provavelmente no Cairo. Sua mãe morreu quando ele tinha 5 anos, o que o levou a viver com um tio em Jerusalém. Quatro anos depois, voltou para o Cairo, passando a morar com uma irmã mais velha, mas mantendo-se afastado do pai. Quando este morreu, em 1952, Arafat não foi ao enterro.

Seus estudos na Universidade do Cairo foram interrompidos pela luta armada, que abraçou ainda na adolescência. Em 1957, ele fundou o movimento Fatah. Em 1969, o grupo se tornaria majoritário dentro da Organização para Libertação da Palestina (OLP). Era uma época em que o mundo começava a tomar ciência da causa palestina, e Arafat se tornava a face mais visível dessa luta. Acusações de participação em seqüestros e atentados acabariam sendo amortecidas por posições mais moderadas assumidas por ele.

No cerco de Israel a Beirute, em 1982, Arafat teve atuação marcante, escapando de tentativas do Exército israelense de matá-lo. Mas acabou se refugiando em Túnis. A influência da OLP parecia menor, mas o início da primeira intifada, em 1987 ¿ inicialmente como um movimento pacífico ¿ mostrou que os palestinos estavam dispostos a levar sua luta adiante.

Em 1988, Arafat renunciou ao terrorismo. O líder, entretanto, acabaria se isolando por apoiar a invasão do Kuwait pelo Iraque, em 1990, o que resultaria na Guerra do Golfo. Mas voltaria ao cenário internacional ao aceitar as negociações secretas com Israel que levariam aos Acordos de Oslo.

A reconciliação com Israel foi breve. Rabin acabaria sendo assassinado por um judeu radical. Seu sucessor, Shimon Peres, foi derrotado em 1996 por Benjamin Netanyahu, o que dificultou o processo de paz. Se de um lado o novo premier era acusado de tentar manter a liderança palestina fraca, de outro Arafat era acusado de ter assessores corruptos e permitir a ação de grupos armados.

Israelenses acusavam Arafat de corrupto e de ter muito dinheiro, mas não se comportar como rico. Sua fortuna seria usada para apaziguar opositores e fomentar adesões. Dias atrás, a TV al-Jazeera disse que ele tinha hotéis em Espanha, Itália, França, Suíça e Áustria. Afirmou que o líder era grande acionista de empresas que atuam em países com Tunísia e Argélia. O palestino Said Aburish, autor de uma das biografias mais críticas de Arafat, desmentiu taxativamente que ele fosse corrupto:

¿ O que ele faria com dinheiro? Ele não pisava num restaurante há 45 anos e sua roupa se limitava a uniformes grotescos.