Título: Fuga da miséria que acaba numa favela paulista
Autor: Chico Otavio
Fonte: O Globo, 14/12/2005, O País, p. 12

`Chorava nos escondidos quando cheguei nesta cidade fria. É discriminação dos dois lados: negro e índio¿

SÃO PAULO. Em 1977, Manoel Alexandre Sobrinho, o Bino Pankararu, deixou sua aldeia, em Brejos dos Padres (PE), com medo de morrer de fome ou de tiro de posseiro. Já tinha parentes em São Paulo e passou a viver com eles na favela do Real Parque, na zona Sul da capital paulistana, trabalhando como pedreiro. Bino, como outros 1.500 indígenas pankararus que vivem espalhados por 60 bolsões de miséria de São Paulo, tem cabelo crespo e pele escura, como os negros. São cruzados com quilombolas desde o Império. O aspecto indígena só é descoberto na religiosidade, quando ele canta em sua língua para os praiá, espíritos da encantaria e da pajelança. Ou quando mostra a carteira da Funai.

¿ Chorava nos escondidos quando cheguei nesta cidade fria. A gente não tem os traços, por causa da mistura com os pretos. É discriminação dos dois lados: negro e índio. Assim, a gente leva a porta na cara duas vezes ¿ conta.

A difícil vida na favela

Bino Pankararu não agüentou a vida na favela e voltou para Pernambuco, dez anos depois. Mas retornou para ficar pouco tempo. É que na aldeia a vida tinha piorado.

¿ A saudade, o medo, o preconceito, me empurraram de volta para a aldeia. Mas lá não cabe mais índio não. Tentei a sorte numa lavoura, mas o verão comeu tudo o que plantei. Então, peguei a família e disse: ¿Vamos embora de novo para São Paulo, agora vamos sofrer todos juntos¿. E aqui estamos, ainda muito pobres, mas agora mais organizados.

Bino, presidente da única entidade indígena de moradores paulistanos, a SOS Pankararu, instalada num dos barracos da favela do Real Parque.

¿ A gente cavava fundo para achar mandioca. Quando achava, espremia, mas ela não secava para a farinha. Então a gente comia folhas de aricuri ou mucunã pisado. Meu pai, o cacique, saía para trabalhar fora da aldeia e uma semana depois, voltava acabado e com uma cuia de feijão e um queijo para os cinco filhos. Aqui a gente enche a pança três vezes por dia. Eu sinto falta do mato, mas lá eu não alcancei minha felicidade. Nem aqui, mas pelo menos como e ando bem vestidinha. Só que vivo trancada, não tomo banho de rio ¿ conta a pankararu Maria Alexandrina da Silva, de 62 anos, que vive no Real Parque.

A língua pankararu se perdeu

Há quase 30 anos em São Paulo, Bino continua pedreiro e ainda tem ¿leitura e escrita muito fracos¿, segundo explica. Mas já tem filhos na faculdade, um será advogado, outra assistente social.

¿ É o que não pude ter na vida e que lá no sertão não ia conseguir oferecer, para mudar o destino do nosso povo. Afinal, com o direito de fazer faculdade, estamos sendo reconhecidos. Nossa comunidade brigou muito para conseguir, porque a Funai, a Funasa, não acham que índio tem de estudar, não. É tudo no muque, como se diz.

É no muque também que Bino e os mais velhos da comunidade conseguem juntar dinheiro e fretar ônibus, duas vezes por ano, para levar os integrantes da comunidade à aldeia, no sertão de Pernambuco. Lá, eles retomam os laços com a cultura pankararu. A língua, eles perderam. Os mais velhos ainda conseguem cantar na língua de origem, durante os rituais de pajelança e encantaria.

Os rituais sagrados dos pankararus são o ponto de equilíbrio da cultura, que os deixa ser algo mais além de ¿favelados¿, como afirma o pesquisador Benedito Prezia, da Pastoral Indigenista de São Paulo. Eles fazem os rituais no Real Parque para a transmissão da cultura, principalmente aos mais jovens, mas como não há espaço de chão batido suficiente, a pajelança só acontece de fato em Pernambuco. Em São Paulo é folguedo, dizem os mais velhos.

¿ O mais triste é não termos terra, e para que os praiá (espíritos dos ancestrais e encantados) nos ajudem, é preciso dançar horas sobre a terra, não pode ser no cimento. Os meninos brancos da favela (geralmente traficantes) dizem: ¿Podem fazer aí, tiozinho, não tem problema¿. Não dá para ser de verdade. Mas nosso povo mata a saudade com alguma coisa, que é mais uma apresentação. Muitas vezes, tenho vontade de jogar tudo para o alto e voltar à aldeia. Queria criar meus netos fora da favela ¿ desabafa Bino.

Maria Alexandrina, ou Maria de João Binga, como é conhecida por causa do pai cacique, João Monteiro da Luz, passa a maior parte do ano na favela do Real Parque, mas fica temporadas na aldeia. Uma de suas funções é ajudar na tradição em São Paulo. Segundo ela, o único ritual correto que pode ser feito em São Paulo é no Dia do Índio, quando as comunidades se unem em espaços maiores, emprestados por entidades.

¿ Tem também o tempo das corridas, que fazemos em três domingos seguidos, e o toré (dança). As mulheres se pintam com tinta de barro branco, os homens vestem os praias (estruturas de palha que cobrem o corpo do indígena para que o espírito use seu corpo e ele fique sem identidade durante a incorporação). Mas lá (na aldeia) é o tronco, por isto é preciso ir sempre para a terra.

A pajelança, feita ao ritmo dos maracás, cuida da saúde da comunidade. No entanto, segundo Maria de João Binga, muitas vezes o ¿encantado¿ (espírito) chacoalha o maracá:

¿ Isto é para o povo da caneta cuidar ¿ explica, referindo-se aos médicos brancos.