Título: BRASIL VAI ANTECIPAR PAGAMENTO DE US$15,5 BI AO FMI
Autor: Patricia Duarte
Fonte: O Globo, 14/12/2005, Economia, p. 23
Governo quitará este mês dívidas que venceriam em 2006 e 2007; economia é de US$900 milhões em juros
BRASÍLIA, SÃO PAULO e RIO. O governo decidiu antecipar para o fim deste mês o pagamento de US$15,5 bilhões em empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI), que venceriam em 2006 e em 2007. Com isso, o país quita os compromissos com a instituição e economiza US$900 milhões em juros que não precisarão ser pagos. A equipe econômica, alvo de fortes críticas dentro do próprio governo pelo seu conservadorismo, argumentou que isso só foi possível pela atual política econômica. Com a medida, o Brasil encerra sete anos de relação direta com o organismo multilateral e fica sem dívidas na instituição.
¿O pré-pagamento ao FMI representa um momento histórico para o país e reflete a melhora significativa dos fundamentos macroeconômicos no período recente, como conseqüência das decisões de política econômica tomadas pelo governo¿, disse em nota o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles.
Em São Paulo, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, afirmou que a antecipação do pagamento ao Fundo foi possível graças ao expressivo crescimento das reservas internacionais, que passaram de US$15 bilhões para US$50 bilhões desde 2003, e não ao aperto nas contas públicas.
¿ Estamos em uma situação em que podemos antecipar (o pagamento) ¿ disse o ministro, após almoço com dirigentes de montadoras. ¿ Podemos fazer isso pelo comportamento das reservas, no sentido de continuar melhorando o ambiente econômico no Brasil.
No Rio, o secretário do Tesouro, Joaquim Levy, considerou um caminho natural do país antecipar o pagamento da última parcela do acordo com o FMI.
¿ À medida que o setor externo está se fortalecendo e a economia como um todo está mais forte hoje, o ministro Palocci teve condições de levar ao presidente essa opção. As vantagens vão muito além da economia financeira ¿ disse Levy.
O cronograma original previa que, do total ainda devido ao FMI, o país quitaria US$7 bilhões em 2006 e outros US$8,5 bilhões em 2007. Desde dezembro de 1998, o país vinha utilizando recursos do FMI. Naquela época, o Brasil teve acesso a US$18 bilhões.
Governo pode tirar vantagem política, diz especialista
De acordo com o BC, o valor máximo da dívida chegou, em novembro de 2003, a US$33,7 bilhões pelo câmbio da época. Em março deste ano, o governo decidiu não renovar o acordo com o Fundo, também atribuindo o fato às condições macroeconômicas mais sólidas.
Para especialistas, a equipe econômica ¿ encabeçada pelo ministro Antonio Palocci ¿ pode colher os louros da decisão técnica de agora também no campo político.
¿ Não tenho dúvida de que isso (antecipação do pagamento) poderia ser visto como ganho político. Recorrer ao FMI sempre tem custo político e, sair, pode ser visto como positivo ¿ afirmou o economista-chefe do ABN-Amro, Mário Mesquita.
O Ministério da Fazenda, também por meio de nota, atribuiu a decisão ainda ao setor externo, com a balança comercial fechando o ano com saldo superior a US$40 bilhões. Para economistas, as elevadas reservas internacionais também contribuíram, já que o BC vem comprando sistematicamente grande quantidade de dólares do mercado, aproveitando a cotação na faixa de R$2,20.
O diretor-gerente do FMI, Rodrigo de Rato, divulgou nota em Washington saudando a decisão do Brasil:
¿A decisão reflete o crescente fortalecimento da posição externa do Brasil¿, afirmou Rato, acrescentando que o FMI espera continuar mantendo com o Brasil uma relação próxima e construtiva, ¿incluindo áreas-chave como o investimento público¿.
COLABORARAM Aguinaldo Novo e Cássia Almeida