Título: A maré pró-Serra
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 15/12/2005, O GLOBO, p. 2

A simulação de segundo turno da pesquisa CNI-Ibope, em que o presidente Lula perde para o prefeito tucano José Serra, demonstra que a maioria dos eleitores de Lula em 2002 está migrando para o candidato derrotado naquele pleito, que por sua vez conservou quase intocado seu eleitorado de então. Tal movimento favorece muito a escolha do prefeito como candidato do PSDB.

Talvez por isso mesmo, ao comentar a pesquisa, ele não escondia seu contentamento, mas se esforçava para não apresentar sua candidatura como fato consumado. Pelo contrário, num passo atrás, admitiu como mais provável sua permanência na prefeitura até 2008. Agora que o governador Geraldo Alckmin anunciou sua candidatura, Serra precisará de muita habilidade ¿ traço que não é seu forte ¿ para obter o consenso partidário em torno de seu nome.

Em 2002, Lula foi eleito com 61% dos votos, derrotando Serra por uma vantagem de 22 pontos percentuais. Pela simulação da pesquisa CNI-Ibope, se a eleição fosse hoje, e Serra o seu adversário, teria apenas 35%. Isso significaria um encolhimento de 26 pontos percentuais no seu eleitoral final de 2002. Serra, que naquele segundo turno ficou com apenas 39% do total de votos válidos, agora teria 48%, derrotando Lula por uma diferença de 13 pontos percentuais. Tal raciocínio mostra forte migração de ¿arrependidos¿ para Serra, sobrando frações menores para outros candidatos.

Uma outra decomposição destes números aparece na análise da pesquisa feita pela Consultoria MCI para a CNI. Mostra que Lula ficaria com apenas 54% de seus eleitores de 2002, poderia capturar 5% dos que votaram em Serra e seduzir apenas 17% dos que não votaram naquela eleição. Já o tucano ficaria com 90% de seus próprios eleitores (tradução quantitativa do chamado recall), tomaria 32% dos votos que Lula teve e seduziria 46% dos que não votaram naquele pleito. Notável também o fato de Lula só ganhar de Serra na região Nordeste e perder em todas as faixas de renda, inclusive naquelas onde o governo concentra seu grande investimento social, o Bolsa Família.

São indicadores altamente favoráveis ao tucano, descontado o fato de que, a 11 meses da eleição, muita água ainda rolará, ainda que não para o moinho de Lula. Tanto ele como seu governo colheram nesta pesquisa os mais amargos efeitos do escândalo. A escolha tucana, entretanto, terá de acontecer até o final de março. O tempo é curto para Alckmin fortalecer-se como alternativa, embora tenha crescido seis pontos percentuais em relação à última pesquisa da série. Os tucanos não-serristas vivem dizendo que as pesquisas serão apenas um dos elementos que serão levados em conta na hora da escolha. Mas quando a vantagem torna-se tão avassaladora, o peso deste fator aumenta muito.

A pesquisa CNT-Sensus já vinha fazendo simulações de segundo turno e em suas duas últimas edições apontou a vantagem de Serra sobre Lula. Na série CNI-Ibope, é a primeira vez que a simulação aparece, e com vantagem ainda maior para o tucano. E traz ainda como novidade o melhor desempenho de Serra (37% contra 31% de Lula) também no primeiro turno. Pode não ser ainda o fundo do poço mas são os danos da crise em seu ponto máximo.