Título: BUSH: `ASSUMO A RESPONSABILIDADE¿
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Fonte: O Globo, 15/12/2005, O Mundo, p. 38

Na véspera da eleição no Iraque, presidente faz mea-culpa mas diz que invasão foi acertada

BAGDÁ e WASHINGTON

Enquanto milhares de candidatos terminavam suas campanhas eleitorais na disputa pelos votos de 15 milhões de eleitores registrados para as eleições legislativas de hoje no Iraque, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, prosseguia ontem em sua campanha de relações públicas sobre a ocupação daquele país, onde já morreram mais de 2.100 soldados americanos desde 2003. No quarto discurso sobre o tema em duas semanas, Bush assumiu responsabilidade pela decisão de invadir o Iraque baseado em informações falsas da inteligência dos EUA, mas, ainda assim, defendeu a derrubada de Saddam Hussein.

Amargando baixos índices de popularidade e de aprovação à guerra no Iraque, o presidente tem aproveitado a iminência da histórica eleição iraquiana para reforçar seu ponto de vista e provar que ¿ ao contrário do que dizem seus oponentes ¿ tem uma estratégia para ganhar a guerra.

¿ É verdade que boa parte da inteligência se revelou errada. Como presidente, sou responsável pela decisão de entrar no Iraque. E também sou responsável por consertar o que deu errado reformando a nossa capacidade de inteligência. E é isso que estamos fazendo ¿ afirmou Bush no Centro Internacional Woodrow Wilson para Acadêmicos.

Presidente volta a culpar Saddam

O presidente, cujo governo assegurou aos americanos e ao resto do mundo que o Iraque de Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa nunca encontradas, defendeu a invasão repetindo a antiga linha de argumentação.

¿ Dados o histórico de Saddam e as lições do 11 de Setembro, minha decisão de remover Saddam Hussein foi certa. Saddam era uma ameaça e o povo americano e o mundo estão melhores porque ele não está mais no poder ¿ disse Bush, que novamente jogou a culpa da guerra sobre o então ditador iraquiano. ¿ A qualquer momento ele poderia ter evitado a guerra se aceitasse as justas exigências da comunidade internacional. Os Estados Unidos não escolheram a guerra. A escolha foi de Saddam Hussein.

Numa nova pesquisa da rede de TV CNN e do jornal ¿USA Today¿, a popularidade de Bush subiu de 38% para 42%. Além disso, caiu de 54% para 48% o número de pessoas que desaprovam a guerra no Iraque. O presidente ressaltou a eleição de hoje como um ponto de virada histórica.

¿ Estamos vivendo um momento divisor de águas na história da liberdade. Os iraquianos vão às urnas escolher um governo que será a única democracia constitucional do mundo árabe ¿ argumentou ele, que pediu paciência e disse que as tropas americanas ficarão o tempo necessário para estabilizar o país. ¿ Contudo, precisamos lembrar que as eleições são parte vital de uma estratégia mais ampla de proteger o povo americano da ameaça do terrorismo.

Antes do discurso, o senador Harry Reid, líder da minoria democrata, disse que os 41 membros de sua bancada mandaram uma carta a Bush cobrando acertos no Iraque.

¿ O presidente já fez vários discursos e ainda não jogou o foco sobre o que precisa ser feito para convencer o povo americano e lhe mostrar seu plano para o Iraque ¿ criticou.

Em seu contra-ataque, a Casa Branca anunciou ter designado a secretária de Estado, Condoleezza Rice, para coordenar os esforços de reconstrução e estabilização de nações destruídas por guerras ou distúrbios civis. A medida teria por objetivo pôr fim aos desentendimentos entre as inúmeras agências federais que marcaram o início da ocupação em 2003.

No Iraque, o dia não teve atentados importantes. Há expectativas de um grande comparecimento às urnas hoje, superando os 58% das eleições de janeiro, já que os sunitas, que boicotaram o pleito anterior, participarão da escolha dos 275 membros da Assembléia Nacional.

¿ Os iraquianos estão desesperados para ficar livres desse longo pesadelo. As eleições serão uma oportunidade de ouro para começar o processo de cura e aproximação para construir um novo Iraque ¿ disse Ashraf Qazi, representante especial do secretário-geral da ONU, Kofi Annan.

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