Título: Mal embrulhado
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 16/12/2005, O País, p. 2

Nem o espírito natalino deve esfriar a ira da opinião pública com o pacote de fim de ano dos congressistas: a Câmara absolveu o primeiro beneficiário do valerioduto que foi julgado em plenário, Romeu Queiroz, e o Congresso se autoconvocou para trabalhar no recesso ao custo de R$100 milhões. E foram-se todos, de férias, sem aprovar o Orçamento e nem mesmo os créditos suplementares que fazem falta não ao exatamente governo mas aos projetos que precisam do dinheiro previsto.

Este tosco pacote natalino sem dúvida aumentará a desilusão política e a descrença na representação popular produzidas pelo escândalo e a crise. No caso da convocação, o único louvor fica para o presidente da Câmara, Aldo Rebelo, que não apenas tentou evitar esta convocação desnecessária e de resultados previsíveis. Vencido pela pressão dos líderes e das CPIs, ontem ele fez incluir na pauta extraordinária o projeto do deputado Raul Jungmann - que acaba com o pagamento adicional em casos de convocação - e a emenda que reduz a duração do recesso parlamentar. Aldo criará uma comissão especial para apreciar as duas matérias mas elas enfrentam uma pedreira de resistências, sobretudo no baixo clero. Só serão aprovadas se a tal voz rouca das ruas, que andou clamando pela cassação dos envolvidos com o valerioduto, bater-se também pelo fim do jabaculê das convocações e pelo encurtamento do recesso. Há alguns dias Aldo prevê que, pior do que a interrupção dos trabalhos, inclusive das CPIs (que poderiam trabalhar internamente, avançando no exame dos dados disponíveis), seria uma convocação que nada produzisse para justificar a queima de tanto dinheiro: nem cassações, nem avanço nas investigações nem aprovação de matérias de real interesse público. Ao engolir a convocação, ele ameaçou com a perda de mandato os que faltarem a mais de um terço das sessões.

- Aldo está certo, isto está previsto no regimento. Já houve no passado a cassação de dois deputados gazeteiros - recorda o líder do PFL, Rodrigo Maia.

Refere-se a Felipe Cheidde e Mario Bouchardet, os primeiros cassados após a redemocratização, por faltarem ao trabalho durante quase todo o ano.

Muitos têm criticado o projeto de Jungmann dizendo que trabalhador também ganha em dobro quando faz hora extra durante o descanso remunerado. É de rir. Deputado e senador não são trabalhadores. Fizeram uma opção. Têm um contrato de representação com a sociedade. Têm o povo como patrão. O salário nominal não é realmente alto no Brasil, poderia até ser aumentando, mas de forma transparente. Mas houve uma opção pelos anabolizantes, como as verbas de gabinete, de representação e pagamentos absurdos como estes extras.

Quanto à absolvição de Romeu Queiroz, é cedo para saber se indicou mesmo uma tendência do plenário, que pela primeira vez peitou o Conselho de Ética. Mas a prevalecer o argumento de Queiroz, de que não embolsou o dinheiro sacado do valerioduto, repassando-o ao PTB e a candidatos, a porteira pode mesmo ser aberta. Fala-se num acordo de absolvições recíprocas entre PT, PTB e PP.

- A cegueira e a surdez corporativa estão impedindo a maioria da Casa de captar o sentimento antipolítica que está no ar. As bengaladas cívicas virão, na eleição do ano que vem - diz Jungmann.

O ano parlamentar que começou com a eleição de Severino terminou assim, em outra noite de inconsciência política coletiva.