Título: Retrato da clientela
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 18/12/2005, Panorama Político, p. 2

Na pancadaria que tomou conta das relações políticas desde o início da crise, sobrou até para o ministro Antonio Palocci, até então uma espécie de queridinho da oposição. A única política do governo que ainda inibe os adversários do presidente Lula é o programa Bolsa Família: eles a criticam, qualificam de assistencialista mas não falam em acabar com ela. Nem falarão isso na campanha. Sabem que seus beneficiários representam milhões de votos.

Eles certamente ajudaram a conter a queda vertiginosa do potencial eleitoral do presidente Lula, que o levou a explicitar, na sexta-feira, o dilema que só vinha apresentando aos mais íntimos: ser ou não ser candidato. Na coluna de ontem demonstramos que o programa e sua expansão serão um instrumento limitado no esforço de recuperação de apoio cuja erosão concentrou-se na classe média. Hoje vamos apresentar uma pesquisa encomendada pelo Ministério do Desenvolvimento Social numa amostra de beneficiados que revela, no conjunto das respostas, um alto grau de satisfação e aprovação. À parte o potencial eleitoral, aspecto que o ministro Patrus Ananias evita ao máximo admitir ou comentar, o programa que acabou encarnando a idéia do Fome Zero é a maior experiência de transferência de renda já implantada no país. Vale recordar que encampou projetos da mesma natureza implantados no segundo mandato do presidente Fernando Henrique.

Detesta também o ministro Patrus que se reduza a política social do governo ao programa: há famílias que ainda não migraram e continuam recebendo o Bolsa Escola, o Vale-Gás e o Peti. Existem as Casas de Família (quase 20 mil), porta de entrada dos muito pobres no Sistema Único de Assistência Social (Suas); há o Luz para Todos, a compra garantida da produção dos agricultores financiados pelo Pronaf (até R$2.500/ano) e o benefício continuado da Loas, que garante um salário-mínimo a idosos sem renda e portadores de deficiências. Mas o universo mais significativo é dos que recebem o dinheirinho vivo da Bolsa.

A pesquisa foi realizada em setembro pela Polis Pesquisas com 2.317 portadores do cartão em 86 municípios de todas as regiões. Para 41,3% dos entrevistados, o programa é muito importante e para 55,3%, importante. Aprovação de 96,6%, portanto. Na média, a maioria disse receber R$64,19, o que bate com a média de R$63,76 apurada pelo ministério. Isso aponta a confiabilidade das respostas, diz a secretária de Renda e Cidadania, Rosane Cunha. Com a bolsa, para 25,9% a vida ¿melhorou muito¿. Para 62%, melhorou. Apenas 11% acham que ficou igual. É no Nordeste ¿ região em que o apoio ao presidente resiste e lhe daria a vitória ¿ que a resposta ¿melhorou muito¿ foi mais freqüente: 34,7% contra 13,9% no Sudeste. O valor do benefício é considerado baixo por 30,2%, médio por 52,7% e alto por apenas 6,3%. Mas é até surpreendente que a maioria absoluta não o tenha achado baixo, embora o governo esteja gastando R$6,5 bilhões este ano com o atendimento de 8,7 milhões de famílias.

A resposta que mais contentou Patrus foi quanto ao destino do dinheiro: 87% disseram aplicá-lo em comida, 42,1% em material escolar. Outras necessidades obtiveram índices bem menores. Na pergunta, frisa o secretário de Avaliação da Gestão e Informação, Rômulo Paes, foi lembrado ao beneficiário, para deixá-lo à vontade, que ele pode fazer o que quiser com o dinheiro.

¿ O fato de a maioria gastá-lo em alimentação mostra que estamos garantindo um direito essencial: 91,5% declaram que a bolsa os ajuda a fazer três refeições por dia, ou quase todos os dias. Esta foi uma bandeira do presidente Lula na campanha ¿ afirma o ministro.

A exigência de condicionalidades foi a questão que mais desgastou o programa, quando foram verificadas falhas na fiscalização. Segundo a pesquisa, 88,1% dos beneficiados sabem que precisam manter as crianças na escola e 24,5% que é necessário atualizar vacinas e freqüentar os postos de saúde; 85,6% concordam inteiramente com elas e 11,7%, apenas parcialmente. As mulheres são maioria absoluta (89,8%) entre os responsáveis legais pelo benefício. Sintoma da situação social que tem posto mulheres sozinhas a chefiar famílias.

Deixou a pesquisa de aferir a percepção de que a Bolsa é um programa do governo federal. Mas isso virá na campanha, com Lula ou com outro candidato, associando o Bolsa Família à redução da pobreza apontada pela Pnad, ainda que isso não baste para apagar a memória do escândalo e reconquistar a classe média. De todo modo, a pesquisa é um instrumento importante para a avaliação desta política pública.

COM A REUNIÃO ministerial de amanhã, o presidente Lula perscrutará o horizonte de suas dúvidas. Cada área do governo (econômica, social, infra-estrutura, etc.) terá um ministro-relator do que foi feito e das prioridades para 2006. Os recursos disponíveis serão avaliados e, pelo combinado com Palocci, terão que ser liberados com agilidade. Os ministros que planejam sair para disputar a eleição terão que abrir o jogo. Talvez Lula peça que saiam logo em janeiro. A receita que se busca é rara: como produzir resultados capazes de reacender a esperança dos pobres e a simpatia da classe média depois do desencanto de natureza ética, e com o vento soprando a favor da oposição. Serra, dizem os tucanos, começa a encarnar o papel que coube a Lula em 2002, o de anti-governo.