Título: LULA CRITICA POSTURA DE NAÇÕES RICAS NA RODADA DA OMC EM HONG KONG
Autor: Eliane Oliveira
Fonte: O Globo, 20/12/2005, Economia, p. 24

Para presidente, subsídio à agricultura impede que países saiam da pobreza

BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a atacar ontem os países desenvolvidos, cobrando deles um "estender de mãos", em seu programa de rádio semanal "Café com o presidente". Embora o Brasil e outros países em desenvolvimento tenham arrancado da União Européia (UE) e dos Estados Unidos, há dois dias na reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), o compromisso de eliminação total dos subsídios à exportações agrícolas até 2013, Lula afirmou que as nações mais ricas do mundo ainda fazem muito pouco para ajudar as economias mais pobres.

- Países pobres e emergentes, como o Brasil, estão exigindo que os países ricos abram mão dos subsídios que dão para a agricultura, para que tenhamos maior acesso ao mercado internacional. E há países que dependem única e exclusivamente de sua produção agrícola - disse Lula.

Lula: resistência de ricos ameaça Metas do Milênio

São gastos em subsídios por EUA e UE cerca de US$360 bilhões por ano - quase US$1 bilhão por dia. O presidente citou milho, açúcar e algodão, como exemplos de culturas fundamentais para países menos desenvolvidos da América Latina e da África. As dificuldades impostas pelas nações desenvolvidas, destacou Lula, vão impedir o cumprimento das Metas do Milênio.

As Metas do Milênio formam um conjunto de oito ações a serem cumpridas até 2015. São elas: erradicar a extrema pobreza e a fome; tornar o ensino básico universal; promover a igualdade de gênero e a autonomia das mulheres; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde materna; combater a Aids, a malária e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental; e estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento.

- Os países ricos aprovaram as Metas do Milênio, mas estão fazendo muito pouco para dar uma ajuda aos países pobres, que precisam do estender de mão dos países ricos - afirmou o presidente.

Lula esclareceu que, quando se diz preocupado com as Metas do Milênio, não está se referindo especificamente ao Brasil, mas sim aos países pobres. Mesmo porque, ressaltou, o Brasil tem condições de cumprir os objetivos.

- O Brasil já está garantido, porque tem competência para produzir, tem conhecimento, tecnologia e qualidade. Só que há países que não têm.

Para as ONGs, pobres foram traídos

Prazo até 2013 para fim de subsídios terá efeito negativo

GENEBRA e JOHANNESBURGO (África do Sul). Grupos de direitos humanos, de apoio ao desenvolvimento e sindicatos de trabalhadores consideraram o acordo da Organização Mundial do Comércio (OMC), fechado no domingo em Hong Kong, uma traição e um abuso contra os países pobres. O acordo, resultado de intensas negociações, em que todas as partes tiveram de ceder em algum ponto, permitiu que as conversações possam continuar no próximo ano e impôs um prazo para o fim dos subsídios às exportações agrícolas.

Os críticos do acordo consideram que os subsídios garantidos até 2013 terão um impacto negativo nas economias das nações mais pobres. Para a ONG Oxfam International, o acordo é "uma traição das promessas de desenvolvimento feita pelos países ricos, cujos interesses mais uma vez prevaleceram".

A crítica encontrou eco na África, onde organizações afirmaram que a intransigência das nações mais ricas vai ser paga pelos países pobres daquele continente. "Os países ricos mais uma vez falharam em estender uma mão de solidariedade aos pobres", disse em nota a confederação sindical sul-africana Cosatu.

Legenda da foto: MANIFESTANTES NA Índia queimam um boneco representando a OMC: protesto contra acordo comercial